terça-feira, 30 de junho de 2015

O DESAFIO DO CRESCIMENTO INTEGRAL






"E crescia Jesus em sabedoria, em estatura e em graça para com Deus e os homens" (Lc.2.52).

Pouco se sabe sobre a infância de Cristo, mas ficou registrado que o seu crescimento era pleno e saudável (Lc.1.80; 2.40).  O crescimento humano precisa ser físico, intelectual, social, emocional, espiritual etc. O crescimento parcial pode ser trágico. As atrofias mais evidentes são físicas e mentais. Entretanto  existem outras, como, por exemplo: Teoria sem prática; trabalho sem conhecimento; conhecimento sem caráter; riqueza sem prudência; poder sem amor; autoridade sem sabedoria ou zelo sem entendimento (Rm.10.2).  Algumas dessas combinações podem ser perigosas como aceleração sem freio. De situações assim surge o radicalismo e os abusos de toda sorte.

O problema se agrava porque alguns tipos de crescimento causam orgulho, arrogância e uma ilusória satisfação, dificultando cada vez mais o desejável equilíbrio. O resultado pode ser o fracasso ou mesmo a prática de tolices e crimes. Por isso, a bíblia apresenta requisitos para a nomeação de líderes, procurando evitar que a ascensão hierárquica seja incompatível com as condições pessoais  (ITm.3.5-6). Precisamos crescer em vários aspectos e não apenas em um.

É fácil reconhecer a importância do crescimento, mas não devemos pensar que ele aconteça naturalmente ou por acaso. Assim como o corpo precisa do alimento para crescer, o mesmo ocorre nos demais aspectos do ser humano, cuja "alimentação" envolve dedicação e investimentos de vários tipos, primeiro da família, depois do indivíduo.

Um fator muito importante neste assunto é o tempo. Os pais sempre avaliam o crescimento dos filhos em função da idade. Existe uma expectativa proporcional ao tempo. Não é razoável que alguém seja velho e imaturo, mas é possível, principalmente nas questões de fé.

Embora não possamos determinar prazos rígidos para a apresentação de certos resultados, a bíblia nos dá alguns exemplos que podem servir como parâmetros. Aos 12 anos, Jesus já estava preparado para discutir com os doutores da lei. Sua divindade não nos serve como argumento de escape, pois todo judeu deve ser exímio conhecedor da lei por volta da mesma idade. Por extensão, concluímos que as crianças e jovens cristãos têm o dever se crescerem no conhecimento da palavra de Deus e não apenas na cultura mundana que se busca com tanto afinco.

Quanto tempo será necessário para a formação de um líder? É difícil determinar, mas vejamos alguns exemplos: Daniel e seus amigos, depois da formação judaica padrão, foram preparados durante 3 anos para serem assessores do rei Nabucodonosor (Dn.1.5). No mesmo prazo, foram formados os apóstolos de Cristo. Este foi o tempo aproximado entre o "vinde" e o "ide" (Mt.4.19; Mt.28.19). Portanto, com 3 anos de conversão, é possível e desejável que o crente jovem ou adulto tenha lido toda a bíblia e esteja pronto para exercer um ministério na igreja de acordo com o dom que Deus lhe deu. Curiosamente, os israelitas eram proibidos de comerem os frutos produzidos nos 3 primeiros anos de qualquer árvore (Lv.19.23).

Além do crescimento físico, valorizamos muito o crescimento profissional e patrimonial, mas não podemos nos esquecer do crescimento espiritual.  Jesus disse: "De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma"? (Mt.16.26).  Por isso, é importante a nossa dedicação a Deus, procurando conhecê-lo, bem como à sua palavra.

A expectativa divina em relação ao nosso crescimento espiritual pode ser percebida nas seguintes passagens bíblicas:

"E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. Com leite vos criei, e não com carne, porque ainda não podíeis, nem tampouco ainda agora podeis, porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens"? (ICo.3.1-3).

"Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento. Porque qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino" (Heb.5.12-13).

"E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo, Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulentamente.  Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo" (Ef.4.11-15).

Existe o crescimento exterior e o interior. Um se refere à forma; o outro, ao conteúdo. A construção de uma casa grande e bonita pode trazer satisfação. Contudo, se ela permanecer vazia, será inútil, ainda que tenha valor. Assim também, muitas pessoas crescem em vários aspectos. Depois, encontram-se grandes, porém vazias. Tal é a situação daqueles que crescem apenas aos olhos dos homens, mas não aos olhos de Deus. Assim é aquele que tem sucesso perante o mundo, mas é um fracasso perante sua própria consciência.

Certa vez, Jesus contou uma parábola acerca de um homem rico cuja lavoura produziu em abundância. Então, resolveu derrubar seus celeiros e construir outros maiores. Em seguida, disse à sua alma: "come, bebe e folga". Mas o Senhor lhe disse: "Louco, hoje te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será"? (Lc.12.16-21).  Aquele fazendeiro era visionário e bem sucedido, mas não cuidou do seu crescimento espiritual. Chegando o dia de partir para a eternidade, não estava preparado.

Cada um de nós precisa avaliar-se a si mesmo. Em que aspectos estamos crescendo? Em quais temos sido negligentes? O desejo de Deus é o nosso crescimento integral, mas, sobretudo, o crescimento espiritual, pois este se relaciona aos valores eternos.

Pr. Anísio Renato de Andrade

quinta-feira, 11 de junho de 2015

ISAQUE E REBECA




Uma união marcada por aspectos culturais e espirituais.

Os fatos narrados em Gênesis 24 ocorreram quando Abraão tinha 140 anos. Encontrando-se em avançada velhice, o patriarca se mostrou preocupado com o futuro do filho, Isaque, que continuava solteiro. Aos 40 anos, ele ainda era jovem, levando-se em conta a expectativa de vida naquele tempo.  Então, Abraão mandou que seu servo Eliezer se dirigisse à Mesopotâmia e buscasse uma mulher para o filho. Tal atitude estava coerente com os costumes da época, no contexto das prerrogativas patriarcais.

A PESSOA CERTA

Abraão não sabia quem seria a esposa de Isaque, mas de uma coisa ele estava convicto: não poderia ser uma mulher cananeia (Gn.24.3). Os cananeus eram descendentes de Cão (Gn.9.18), um povo idólatra e amaldiçoado. Abraão estava zelando por sua linhagem. Ele não queria que Isaque se casasse com uma mulher ímpia, mas com uma serva de Deus.  Por isso, enviou Eliezer à Mesopotâmia. Ali moravam os parentes de Abraão. Alguns deles serviam ao Senhor. Temos evidências nesse sentido em Gênesis 24.31,50. O nome do pai de Rebeca era Betuel, que significa “homem de Deus”.  Isto não seria uma casualidade, pois, naquele tempo, os nomes eram colocados levando-se em consideração seu significado. 
Isaque precisava se casar com uma serva de Deus. A união com uma mulher cananeia seria uma situação de jugo desigual. O resultado seria um lar dividido, com dificuldades na orientação dos filhos e outros problemas diversos e imprevisíveis.  Muito tempo depois, males desse tipo foram experimentados por Esaú (Gn.26.34-35; 27.46; 28.1-2.) e Judá (Gn.38.1-10).
Abraão poderia ter dito: “Isaque, escolha uma mulher cananeia. Nós vamos ‘evangelizá-la’. Ela se converterá e o seu lar será uma bênção. Vamos fazer isso pela fé, meu filho”. 
Nada disso. O patriarca não confundia imprudência com fé.  Evitar o problema é melhor do que planejar soluções.
O servo ou serva de Deus que se entrega a relacionamentos amorosos com o ímpio está se colocando em situação de alto risco, sujeitando-se a tentações e tribulações desnecessárias.
É verdade que, em casos excepcionais, algumas relações desse tipo conduzem à conversão da parte incrédula. Muitas, porém, causam o desvio do crente.  Sansão, por exemplo, teve sua vida e ministério destruídos por relacionamentos errados (Jz.14.1-2; 16.1; 16.4-18).
Quais são os critérios para a escolha de um companheiro ou companheira? Aparência física? Condição econômica? Nível cultural? Vários fatores podem ser importantes ou não, mas o principal é saber se a pessoa pretendida serve ao Senhor.
Não estamos falando de procurar a pessoa perfeita, mas de minimizar a possibilidade de se envolver com pessoas e situações que venham prejudicar ou inviabilizar a estrutura do novo lar.


O LUGAR CERTO

Eliezer procurou esposa para Isaque:
                        - Numa região específica, a Mesopotâmia.
                        - Na família certa, entre os parentes de Abraão.
                        - No lugar certo: o poço, um local de trabalho.
                        - Na hora certa, à luz do dia.

Tais elementos, ainda que não sejam normativos, ajudaram muito na definição do tipo de pessoa que seria encontrada. Se Eliezer fosse a uma festa noturna no Egito, talvez retornasse trazendo uma odalisca. É difícil encontrar uma flor perfumada dentro do esgoto. Talvez você não esteja procurando alguém, mas frequenta lugares errados para se divertir. Então poderá encontrar o que não procura, ou até mesmo ser encontrado. Situação desse tipo foi vivida por Diná, filha de Jacó, que acabou sendo vítima de um estupro (Gn.34.1-26).

AÇÃO DIVINA

Apesar das instruções de Abraão e do zelo de Eliezer, a missão poderia dar errado. É muito difícil escolher uma pessoa, pois o ser humano é passível de engano.  Por isso, Eliezer, que também era um crente, dependia totalmente de Deus.  Ele não confiava em sua própria sabedoria. O servo orou, pedindo a bênção e a orientação por meio de um sinal (Gn.24.12). O Senhor atendeu, enviando Rebeca ao lugar certo, na hora certa.
Todo aquele que procura uma companheira precisa depender de Deus, orando, crendo e esperando. 

O SINAL

Eliezer não pediu que Deus mandasse uma moça alta ou baixa, gorda ou magra, loira ou morena, de cabelos compridos ou curtos. Ele estava preocupado com atitudes que manifestassem virtudes do caráter.

Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede ao de jóias preciosas”. (Pv.31.10).

Esperar que alguma moça fosse tirar água do poço seria algo simples e normal naquela época.  Entretanto, Eliezer consideraria aquela que, além de lhe oferecer água, também desse de beber aos seus dez camelos.  Ele pediu algo difícil e improvável, que não aconteceria por acaso. Dessedentar todos aqueles animais seria uma tarefa árdua. Um camelo pode viajar durantes dias no deserto sem beber água, mas, quando bebe, precisa de muitos litros.
Buscar água no poço era dever das mulheres. Rebeca, porém, estava disposta a fazer muito mais do que a sua obrigação. Não ficou limitada ao mínimo necessário, mas procurou fazer o máximo que estava ao seu alcance.
O texto diz que ela serviu a água “prontamente” (Gn.24.18, 46), demonstrando qualidades desejáveis numa esposa: bondade, iniciativa, prestatividade e disposição para o trabalho (Gn.24.14). A moça realizou a tarefa até o fim, não parando diante da dificuldade ou por preguiça.

A VIRGINDADE

Além das qualidades já mencionadas, Rebeca era formosa e virgem (Gn.24.16). A virgindade demonstra que a moça soube esperar pelo tempo certo para iniciar sua vida sexual. É verdade que muitas pessoas, quando se convertem, já viveram muitas experiências sexuais fora do matrimônio.  Deus as perdoa e purifica.  Entretanto, aqueles que servem ao Senhor e ainda são virgens, sejam homens ou mulheres, têm a grande honra e dever de se preservarem para o casamento, evitando que, no futuro, tenham que lutar contra lembranças, mágoas, sentimentos de inferioridade, elementos de comparação e outras consequências negativas.

Porque esta é a vontade de Deus, a saber, a vossa santificação: que vos abstenhais da prostituição” (ITss.4.3).

A virgindade perdeu o seu valor na sociedade moderna. Contudo, os valores do cristão devem ser regidos pela palavra de Deus e não pelo mundo.
Se Isaque e Rebeca tivessem relacionamentos anteriores com outras pessoas, talvez a união dos dois não viesse a ser concretizada.  Vínculos errados podem se tornar empecilhos para as uniões legítimas.

A ESCOLHA

A esposa de Isaque não foi escolhida por ele, nem por Abraão, nem por Eliezer, mas por Deus. Acabou-se o livre-arbítrio? De modo nenhum (ICo.7.39).  O texto mostra, claramente, que Rebeca teve a oportunidade de manifestar sua vontade. Se ela não quisesse, não seria forçada a se casar com Isaque (Gn.24. 7, 8, 12, 27, 50, 58).  Isaque também não seria obrigado.
Aquele que procura uma esposa, ou um marido, é livre para escolher. Entretanto, se a pessoa permitir, Deus poderá fazer a escolha.  Ele ajuda a quem pede, mas não obriga ninguém.

O ENCONTRO

Rebeca renunciou à sua família e ao convívio dos pais, viajando com Eliezer em direção a Canaã.  Ali chegando, encontrou-se com Isaque, que meditava no campo. Os dois se conheceram e se uniram em amor. Assim, Isaque foi consolado pela perda de sua mãe (Gn.24.67).  Daquela união nasceram dois filhos: Jacó e Esaú, dos quais duas nações se formaram, dando continuidade ao cumprimento da promessa de Deus a Abraão.


Pr. Anísio Renato de Andrade

segunda-feira, 8 de junho de 2015

SISTEMAS DO UNIVERSO: CRIAÇÃO OU ACASO?




A vida natural é muito complexa e maravilhosa. Tudo que conhecemos na natureza está organizado em sistemas. Todo sistema nos faz pressupor uma inteligência que lhe é subjacente, superior e anterior.  Algum sistema extraordinário e eficaz surge sozinho, sem uma inteligência que o tenha desenvolvido?

Desde o átomo até as galáxias, nota-se funcionalidade, beleza estética e organização matemática. Se o universo é regido por leis, isto não seria testemunho da existência de um legislador?

A posição do nosso planeta no sistema solar é perfeita, variando dentro de uma margem de segurança que parece ter sido calculada. Se estivesse um pouco mais longe do sol, tudo aqui seria congelado; se estivesse mais perto, tudo se queimaria. 

A existência da vida na terra depende da combinação de inúmeros fatores que vão dos átomos aos elementos mais complexos e astros distantes. A falta do sol ou da água bastaria para inviabilizar a vida. Ateus dizem que todos esses fatores foram reunidos por mera coincidência. Porém, mesmo se fosse possível reunir, por acaso, todas as condições para a vida, isso não garantiria seu surgimento. Aquário com água não cria o peixe.

Nota-se propósito nas coisas criadas. Cada elemento existe para algum outro. Os olhos existem para a luz; os pulmões, para o ar;  os ouvidos, para o som. Estas relações tão perfeitas e complexas seriam casuais ou uma coisa foi criada para a outra? Seria o som capaz de provocar o aparecimento do ouvido? E ainda que fosse possível, precisaria ainda produzir um cérebro para interpretar as ondas sonoras, sentir emoções, decidir e responder. Nenhum processo evolutivo explica a relação entre estes elementos, mas tudo se encaixa no conceito criacionista.

O acaso tende, não para um aperfeiçoamento constante, mas para o caos. Se deixarmos que as coisas ao nosso redor cuidem de si mesmas, elas ficarão melhores? Seria uma atitude contrária à inteligência. O empenho humano tem sido sempre no sentido de planejar, pois não confiamos na casualidade.

Todos os sistemas do nosso corpo são extraordinários.  Seu funcionamento é sofisticado e integrado: cada um serve de suporte aos demais. O que seria do sistema respiratório sem o nervoso? O que seria do sistema circulatório sem o digestivo? A relação entre os sistemas é muito avançada e perfeita para ser considerada acidental.

Um dos sistemas mais admiráveis é o imunológico, que cuida da defesa do organismo. Ele não parece ter sido planejado? Sua ausência colocaria tudo a perder. Além disso, ele não é estático, mas capaz de "aprender" o seu papel dinamicamente.

Outro sistema incrível é o reprodutor. O DNA contém toda a programação para o surgimento de um ser semelhante, um descendente. Seria um tipo de programação casual e auto-replicante? É preciso muita fé para acreditar nisso. É mais fácil crer no Criador.

A existência de macho e fêmea, feitos um para o outro, parece resultado de um planejamento consciente e não obra do acaso. A perpetuação das espécies parece ter sido planejada antes de começar.  E a reprodução humana não é apenas uma questão física, mas também psicológica. Poderia haver macho e fêmea e cada um viver sua vida e fim da história, mas o plano supremo inclui a atração e o amor.

O corpo humano apresenta a mais avançada tecnologia de que se tem notícia. É uma máquina que impressiona pelo design, estrutura e funcionalidade, contando com fluxo de energia, lubrificação, transmissão de comandos cerebrais, controle de temperatura, auto-locomoção, capacidade de percepção e integração ao meio-ambiente, comunicação, crescimento, reprodução e desligamento automático.  Não parece ter sido projetado e criado?

É também notável que a nossa existência siga uma programação: nascemos, crescemos, amadurecemos, reproduzimos e morremos. Em virtude do livre-arbítrio interferimos de alguma forma nesta sequência, tentando prolongar a vida ou antecipar a morte. Contudo, a programação existe. Nós não a fizemos. Logo, ela se torna mais um testemunho daquela inteligência superior, do supremo Criador.

O ser humano vai além do aspecto físico e biológico, alcançando uma dimensão moral que os animais não possuem. Inventamos a moralidade? Criamos o bem e o mal? Estas questões de ética e consciência  apontam para um ser superior, a quem chamamos Deus, possuidor original dos valores que preservam a vida.  

Estamos rodeados pelos milagres divinos. São maravilhas surpreendentes e insondáveis. Diante delas, o que é a ciência? O enorme esforço do homem para compreender pelo menos um pouco da infinita obra de Deus.


Pr. Anísio Renato de Andrade

terça-feira, 2 de junho de 2015

SANTIDADE: O PADRÃO DE DEUS PARA NÓS



Uma atitude humanista e egoísta nos leva a colocar nossa vontade acima de tudo, inclusive quando oramos. Embora muitas petições sejam aceitáveis, Jesus nos ensinou a orar assim: "Pai nosso que estás no céu... seja feita a tua vontade" (Mt.6.9-10).  Imediatamente, pode surgir uma dúvida: Qual é a vontade de Deus? O que ele quer?  Poderíamos propor tantas hipóteses, mas vejamos o que Paulo escreveu:

"Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação, que vos abstenhais da prostituição." (ITss.4.3). A santificação é um conceito amplo, do qual a abstinência é um exemplo prático.

Será que o propósito do evangelho é apenas nos abençoar? Seu efeito seria apenas o suprimento das nossas necessidades? Além das bênçãos, a obra de Cristo inclui a santificação, isto é, um processo rumo à santidade, de modo que sejamos cada vez mais parecidos com Jesus.  Ser "abençoado"  está, geralmente, ligado à ideia de receber.  Ser "santificado" relaciona-se mais à renúncia e aparente perda em prol de um ganho maior.

A tradição religiosa distorceu o conceito da palavra "santo", usando-a para designar alguns cristãos "mortos, porém poderosos", mas a bíblia refere-se a todos os salvos como santos (At.9.13; Rm.1,7; Ef.1.1 etc).

A santificação é um processo que começa na conversão. Deus nos resgata como faz o pai que retira o filho da lama, sendo este o primeiro ato de uma série. Em seguida, vem o banho e a troca de roupas. Assim também, depois de sermos retirados do reino das trevas, precisamos de uma transformação, que é parte do que chamamos "crescimento espiritual". Depois da "metanoia" (mudança de mente), vem a "metamorfose" (transformação prática). Não somos apenas transportados para a luz, mas precisamos brilhar como luzeiros no mundo (Fp.2.15), através de um caráter e modo de vida que sejam motivo de glória para o nome do Senhor.

O significado do termo "santificação" tem dois aspectos:  "separação" e "dedicação";  é separar-se "de" alguma coisa e "para" alguém ou algum propósito. 

Uma boa figura bíblica para o tema encontra-se na história de Israel. O propósito de Deus para o seu povo não era apenas libertá-lo do Egito, mas transformá-lo em nação santa (Ex.19.6). Portanto, deu-lhes a lei para santificá-los.  Alguns mandamentos visavam evitar o pecado (separação). Outros, indicavam o que os israelitas deviam fazer (dedicação). São os aspectos "negativos" e "positivos" da santificação, que podem ser resumidos nas palavras do profeta: "Deixai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem" (Is.1.16-17).

O cristão não deve ser conhecido apenas por aquilo que parou de fazer, mas pelo que faz para Deus e em favor do próximo.

A santificação começa na conversão, mas precisa ser desenvolvida. "Aquele que é santo, santifique-se ainda" (Ap.22.11). Existem níveis de santificação.  Por exemplo, a lei dada a Israel tinha o objetivo de santificar o povo. Entretanto, os sacerdotes deveriam seguir mandamentos ainda mais rigorosos para que pudessem estar "mais próximos" de Deus (Lv.21).  Outro tipo de santificação era a dos nazireus, que se consagravam de modo especial, abstendo-se até de algumas coisas que eram permitidas ao povo e aos sacerdotes (Nm.6.1-21).

Quanto mais nos santificarmos, separando-nos das contaminações do pecado e nos dedicando ao Senhor, mais próximos estaremos dele, não em sentido geográfico, pois Deus está em todos os lugares, mas em termos de intimidade. Quanto mais sujos, mais distantes.  O sumo sacerdote deveria seguir regras rigorosas de pureza para entrar no Santo dos Santos, o local de maior intimidade com Deus no tabernáculo e no templo.

Havia um caminho e um procedimento que conduzia ao Santo dos Santos.  O sumo sacerdote precisava entrar pela porta do pátio, fazer o sacrifício para perdão dos seus pecados, lavar as mãos e, com o sangue no recipiente, adentrar nos recintos mais sagrados da casa do Senhor. Mas tudo isso não seria suficiente, se o ministro não demonstrasse um modo de vida coerente com a dignidade do seu ministério. Um comportamento contraditório poderia desqualificá-lo.

Os nazireus, rigorosamente santificados, como Samuel, Sansão e João Batista, tiveram gloriosas experiências com Deus, recebendo poder, revelações e missões especiais. Sansão, porém, depois de maravilhosas vitórias, conduziu sua vida no sentido contrário à santificação, tornando-se exemplo de fracasso pessoal, familiar e ministerial.

A santificação é, ao mesmo tempo, afastamento do pecado e aproximação de Deus. É evitar o pecado e tomar atitudes de consagração ao Senhor. A santificação iniciada pelo Senhor Jesus em nós é um processo contrário à contaminação iniciada por Adão.

Como ocorre a santificação? Ela começa pela ação do sangue de Jesus em nós, perdoando os nossos pecados, e prossegue pela ação da palavra de Deus, cujo símbolo é a água, vivificada pelo Espírito Santo, mudando nossa mentalidade e comportamento.

"E quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão" (Heb.9.22).

"E três são os que testificam na terra: o Espírito, e a água e o sangue..." (IJo.5.8).

"Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra" (Ef.5.26).

"Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado" (João 15.3). 

"Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo..." (IPd.1.2).

Os filhos são orientados no sentido de lavarem as mãos antes de receberem o alimento. Assim também, muitas coisas só nos serão dadas pelo Pai celestial na medida em que nos santificarmos.  Não nos referimos a coisas materiais, pois estas até os ímpios têm, mas bênçãos espirituais que o dinheiro não pode comprar.

"Santificai-vos, porque amanhã o Senhor fará maravilhas no meio de vós” (Js.3:5).

A santificação deve ser nossa prioridade, pois ela é também uma condição para que entremos no santuário celestial e vivamos eternamente na presença de Deus.

"Não toqueis nada imundo, e eu vos receberei" (2Co.6.17).

"Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor" (Heb.12.14).

Pr. Anísio Renato de Andrade


sexta-feira, 29 de maio de 2015

A ESCOLHA DE UM NOVO REI




"Disse o Senhor a Samuel (...) Enche um chifre de azeite e vem. Enviar-te-ei a Jessé, o belemita; porque dentre os seus filhos me tenho provido de um rei. Porém disse Samuel: Como irei eu? pois, ouvindo-o Saul, me matará. Então disse o Senhor: Toma uma bezerra das vacas em tuas mãos, e dize: Vim para sacrificar ao Senhor (...) E sucedeu que, entrando eles, viu a Eliabe, e disse: Certamente está perante o Senhor o seu ungido. Porém o Senhor disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque o tenho rejeitado; porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração (...)
Assim fez passar Jessé a seus sete filhos diante de Samuel; porém Samuel disse a Jessé: O Senhor não tem escolhido a estes. Disse mais Samuel a Jessé: Acabaram-se os moços? E disse: Ainda falta o menor, que está apascentando as ovelhas. Disse, pois, Samuel a Jessé: Manda chamá-lo, porquanto não nos assentaremos até que ele venha aqui. Então mandou chamá-lo e fê-lo entrar (e era ruivo e formoso de semblante e de boa presença); e disse o Senhor: Levanta-te e unge-o, porque é este mesmo. Então Samuel tomou o chifre do azeite, e ungiu-o no meio de seus irmãos; e desde aquele dia em diante o Espírito do Senhor se apoderou de Davi; então Samuel se levantou e voltou a Ramá". (I Sm.16.1-13).

Em princípio, o estabelecimento de um rei é apenas uma questão política, mas Deus está no controle. Muitas questões naturais são resolvidas no mundo espiritual. Deus estava agindo, embora o povo não estivesse consciente disso. 
O texto nos chama a atenção por vários motivos. Um deles é a maneira de Deus fazer as coisas. Seu jeito é diferente do nosso, mas precisamos confiar nele. O próprio Samuel apresentou seu questionamento, mas acabou obedecendo à ordem recebida.
Deus escolheu o novo rei sem levar em conta a vontade do povo nem o suposto direito do príncipe herdeiro, Jônatas. O Senhor visava o bem de Israel, mesmo que, para isso, interesses particulares fossem contrariados.
O Senhor poderia falar com Davi diretamente ou enviar um anjo, mas enviou Samuel. Via de regra, Deus usa homens na realização dos seus propósitos.
Logo no verso 1, Deus poderia ter dito que o escolhido era Davi, mas não disse. Apenas mandou que o profeta fosse à casa de Jessé.  Queremos saber tudo e com a maior antecedência possível, mas Deus nos dirige passo a passo. Ele vai iluminando o caminho na medida em que caminhamos. O fato de Samuel não saber quem era o escolhido, produziria expectativas, desilusões e lições para a família de Jessé.
Samuel não saiu de casa anunciando que iria ungir o novo rei. Ele também não poderia mentir. Portanto, Deus lhe deu uma estratégia para ocultar seu objetivo. Mandou que ele fizesse um sacrifício, que serviria como resposta a quem o interrogasse sobre o motivo de sua visita a Belém. Não devemos falar demais, anunciando aos quatro ventos todos os nossos propósitos e planos, pois isso pode atrair perseguições desnecessárias. O importante, nesse caso, não é a propaganda, mas a obediência ao que Deus mandou.
O Senhor escolheu Davi para reinar sobre Israel. Isto poderia ser suficiente, mas a unção era necessária e importante.  Haveria dificuldades para Samuel cumprir aquela ordem, mas a unção era imprescindível. Estava em jogo, não apenas um cargo, mas um ministério. Da mesma forma, não nos bastam posições e títulos. A unção é indispensável.
Deus sabia que Davi era o seu escolhido, mas, no tempo certo, todos deveriam saber também.  Um dos aspectos da unção é servir como testemunho público da escolha divina. O primeiro a reconhecer Davi como rei seria o profeta. Em seguida, a família. O ministério de Samuel seria um respaldo inicial para a autoridade de Davi. Ninguém poderia dizer que ele surgiu do nada ou que tenha sido sua a ideia de governar.
Davi não era parente de Saul. Portanto, não fazia parte da família real. Além disso, era o filho mais novo, o menor, o último, o menos indicado para reinar.  As melhores oportunidades pertenciam, por costume, ao filho primogênito, nesse caso Eliabe. Todos os fatores pareciam conspirar contra Davi. Três de seus irmãos eram guerreiros, mas ele era um simples pastor de ovelhas. O próprio Samuel ficou impressionado com o irmão mais velho. Davi foi esquecido por todos, inclusive pelo próprio pai, Jessé.
Quais seriam os requisitos necessários para que alguém se tornasse rei? O povo se impressiona com um líder por sua beleza, estatura e eloquência. A árvore genealógica e a condição financeira também pesam bastante. O que vale, porém, é a determinação divina.
O mundo valoriza aspectos exteriores, mas Deus vê o coração. O que nós valorizamos?  O julgamento pela aparência pode criar ciladas. Talvez estejamos julgando a nós mesmos de acordo com critérios mundanos e nos sentimos diminuídos.  Felizmente, ninguém perguntou a Davi se ele queria ser rei ou se possuía condições para isso. Deus o escolheu e pronto.
Muitas pessoas sofrem por causa do desprezo e da rejeição, mas Deus ama a todos. A busca por aceitação conduz muitos jovens às drogas e ao sexo ilícito. Vale tudo para ser aceito pelo grupo?  Não.
O nome "Davi" significa "amado".  Todos podiam esquecê-lo, mas Deus o amava e  lembrava-se dele.  Ele foi escolhido por Deus, e o profeta mandou chamá-lo. Hoje também, ecoa o chamado de Deus para nós.  Não podemos deixar de atendê-lo.  Davi estava ocupado, cuidando das ovelhas, mas não usou isso como desculpa.
Assim que o jovem entrou na casa, o Senhor ordenou que ele fosse ungido. Samuel trouxe consigo um chifre cheio de azeite.  Não seria apenas um toque, mas uma unção abundante. O azeite foi derramado sobre Davi no meio dos seus irmãos.  A unção do Senhor sobre nós deve mostrar seus efeitos dentro das nossas casas, antes que isso ocorra em outros lugares. É no seio familiar que a unção atua em primeiro lugar, através do nosso testemunho de vida.
Naquele momento, diz a bíblia, o Espírito do Senhor se apoderou de Davi. O azeite é um símbolo do Espírito Santo.  Depois da unção, ninguém poderia segurar aquele moço. No capítulo seguinte, temos a vitória de Davi sobre o gigante Golias. Sabendo que seria rei, Davi estava convicto de que nenhum gigante seria capaz de matá-lo. Nós também temos grandes desafios pela frente e precisamos da unção do Espírito Santo.
Daquele dia em diante, Davi passou por um longo processo de preparação para reinar.  A unção não é um fim em si mesma, mas o princípio de uma caminhada com renovado vigor.
"O Espírito do Senhor está sobre mim; porque o Senhor me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos" (Isaías 61.1).

            Pr. Anísio Renato de Andrade



quarta-feira, 20 de maio de 2015

QUE TIPO DE SATISFAÇÃO O EVANGELHO NOS GARANTE?





Assim que nascemos, começamos a desejar. Primeiro, o alimento; depois, tudo.
Temos necessidades básicas que precisam ser atendidas, pois disso depende nossa sobrevivência. Depois, vêm as questões relacionadas à realização de sonhos, vontades e caprichos, nem sempre fundamentais.  A tudo isso, a natureza pecaminosa acrescenta a cobiça.
"Se temos o que comer e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes", foi o conselho de Paulo (1Tm.6.8);  mas nós queremos mais, muito mais e sempre mais.  Podemos desejar e conseguir muitas coisas além da comida e da roupa, mas existem limites que devemos respeitar. O problema está no descontrole.
Adão e Eva tinham inúmeras árvores frutíferas à sua disposição, mas queriam mais uma, justamente aquela que Deus proibiu. 
Deus deu o maná para o povo de Israel no deserto, mas eles queriam carne, pepino, cebola, melão, alho e peixe (Num.11.5). Não seria pecado comer essas coisas, mas precisamos entender que o deserto é lugar de renúncia, representando os períodos de provação necessários ao nosso crescimento.
Os desejos podem vir, mas não devem nos dominar. Este é o ponto que separa a espiritualidade da carnalidade. Não podemos ser guiados pelos desejos, que são voláteis e incertos, mas pelo Espírito Santo.  Além do necessário domínio, existem parâmetros para nossas realizações. Nem tudo nos será permitido.  Devemos estar prontos para ouvir o "sim" e o "não", de modo que tenhamos somente o que Deus permitir, quando ele quiser e durante o tempo que ele determinar. 
Em algumas situações, o "não" é definitivo.  No caso dos desejos impróprios, o único caminho  certo é a renúncia. Por exemplo, "não cobiçarás a mulher do teu próximo" (Ex.20.17) e ponto final.  "Andai em Espírito e não satisfareis a concupiscência da carne" (Gal.5.16).  Na busca da satisfação carnal e pecaminosa (Col. 2.23) ocorrem as "obras da carne", listadas pelo apóstolo Paulo em Gálatas 5.19-21.  Este é o caminho daqueles cujo objetivo na vida é apenas a satisfação de seus próprios impulsos.
No caso dos desejos legítimos e naturais, existe o tempo certo para sua realização. Comer frutos verdes não é aconselhável (Jr.31.30). Precisamos esperar a estação própria. 
Muitas vezes, o desejo natural é substituído pela cobiça, crescente e insaciável. A glutonaria é um exemplo disso. Algumas pessoas nunca estão satisfeitas. Por isso, não agradecem nem valorizam o que receberam. Descartam a conquista recente e partem para nova busca.  Dinheiro, sexo, bens e todo tipo de novidade são objetos de um apetite desenfreado.
"Quem amar o dinheiro jamais dele se fartará; e quem amar a abundância nunca se fartará da renda; também isto é vaidade" (Ec.5.10).
"Como o inferno e a perdição nunca se fartam, assim os olhos do homem nunca se satisfazem" (Pv.27.20).
"A sanguessuga tem duas filhas: Dá e Dá. Estas três coisas nunca se fartam; e com a quarta, nunca dizem basta:  A sepultura, a madre estéril, a terra que não se farta de água e o fogo nunca dizem basta" (Pv. 30.15-16).

"Todo trabalho do homem é para a sua boca. Contudo, nunca satisfaz a sua cobiça" (Ec.6.7).

DESEJOS EGOÍSTAS

A correta avaliação dos nossos desejos pode ser uma boa forma de começar a dominá-los.  Nossa tendência é vivermos em função da auto-satisfação. Isso nada mais é do que um modo de vida pautado pelo egoísmo. Tudo que o homem carnal quer é para si mesmo.  A família, porém, torna-se fator de equilíbrio, pois nos ensina a compartilhar.
O texto de Eclesiastes 2 nos mostra quantas coisas o rei Salomão fez apenas para si.  No final, concluiu que tudo era "vaidade e correr atrás do vento" (Ec.2.1-11). 
Jesus disse: "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me" (Lc.9.23). Portanto, o cristianismo não é um caminho para a satisfação dos nossos desejos egoístas. Negar a si mesmo é a contramão da cobiça.  Jesus nos ensina a olhar para o próximo e não apenas para os nossos próprios interesses.
A busca cega pela satisfação dos desejos pessoais causa repulsa ao sofrimento, mesmo quando ele é necessário. "Tomar a cruz" não satisfaz a carne, mas sim ao espírito.  Sem a cruz, o cristianismo se transformaria em hedonismo, que significa a colocação do prazer como único propósito na vida. Jesus nos ensinou a pedir "o pão nosso de cada dia" (Mt.6.11), mas nos instruiu também, no mesmo capítulo, sobre a abstinência temporária do pão, isto é, o jejum (Mt.6.16-18). Ganho e renúncia fazem parte do evangelho.

DESEJOS ILUSÓRIOS

O filho pródigo vivia na casa do pai, tinha tudo que precisava, mas estava insatisfeito. Talvez tenha ouvido acerca dos atrativos da cidade. Um dia, resolveu cair de cabeça naquele mundo de aventuras.
Quantos estão insatisfeitos na casa do Pai? Cuidado. As tentações atendem exatamente a esse tipo de sentimento.  O filho ficou iludido com a possibilidade de encontrar satisfação longe de casa. Não encontrou.
Ao contrário, na busca por grandes conquistas, sofreu grande perda. Suas realizações foram fúteis e fugazes. Um dia, achando-se no meio dos porcos, sentiu novamente uma grande insatisfação. Lembrou-se da casa do pai e decidiu voltar (Lc.15.11-32).
Não encontraremos felicidade longe dos caminhos do Senhor.  Judas Iscariotes pensou que ficaria satisfeito com 30 moedas de prata.  O resultado foi a decepção, o desespero e o suicídio (Mt.27.3-5).

ONDE ENTRA DEUS NESSA HISTÓRIA? 

Há quem pense que Deus tem a responsabilidade de satisfazer todos os nossos desejos e realizar todos os nossos sonhos. É o que talvez esperam do evangelho, mas estão enganados.  Alguns desejos são pecaminosos e alguns planos são errados.
Será que Jesus veio ao mundo e morreu na cruz para que tivéssemos todos os nossos desejos atendidos?  Ele não é o gênio da lâmpada. 
O que Jesus fazia pelas pessoas durante seu ministério terreno?  Ele acudiu a muitos que estavam em situação desesperadora, curando-os e libertando-os.  Depois, cada um deveria trabalhar para conseguir o que desejasse. Não vemos Jesus distribuindo dinheiro. 
Ele pode fazer tudo, mas não está a nosso serviço.  Certa vez, Jesus multiplicou pães e peixes e alimentou mais de cinco mil pessoas.  No dia seguinte, quando elas voltaram para comer pão de graça, ele lhes disse: "Eu sou o pão vivo que desceu do céu" (João 6).  Em outras palavras, o Mestre estava ensinando que as pessoas deveriam buscá-lo e não ao pão que ele poderia dar.  
Como podemos, então, entender o versículo que diz "Agrada-te do Senhor e ele fará o que deseja o teu coração"? (Salmo 37.4).   Quando você estiver satisfeito com o próprio Deus, então ele dará outras coisas que você deseja (o que não significa que sejam todas). Ele dá até riquezas materiais para alguns dos seus filhos. Só não podemos pensar que este seja o objetivo do evangelho. Deus enriquece e empobrece a quem ele quer (ISm.2.7), conforme seus soberanos desígnios.

DEVEMOS SATISFAZER AO SENHOR

Quando deveríamos nos contentar, queremos mais; quando deveríamos ficar insatisfeitos, pensamos que basta.  Em alguns momentos, Deus mandou ir além, mas paramos.   Se é para nós, queremos mais; Se é para Deus, o pouco já nos parece suficiente.  O nome desse tipo de satisfação é comodismo. É, mais uma vez, o engano da natureza pecaminosa.  (Ag. 1.1-4).
Vivemos concentrados em satisfazer os nossos desejos, mas deveríamos nos preocupar em agradar a Deus em primeiro lugar.  Esta é a atitude essencial do cristão. Somos servos. O servo faz tudo que o seu senhor quer. Depois, se der tempo, faz algo para si mesmo.
A respeito do Messias, o profeta Isaías escreveu: "Ele verá o fruto do trabalho da sua alma e ficará satisfeito" (Is.53.11).  Nosso propósito deve ser este: que Jesus fique satisfeito conosco.
Cristo perguntou a algumas pessoas: “O que queres que eu te faça”? Foi a oportunidade para a solução de muitos problemas (Mc.10.51, etc). Mas nós também precisamos perguntar a Jesus, como fez Saulo de Tarso: “Senhor, que queres que eu faça” (At.9.6).  Assim, assumiremos nossa posição de servos.

TIPOS DE NECESSIDADES

Além das necessidades físicas e psicológicas, temos necessidades espirituais.  Isso fica evidente, por exemplo, no diálogo de Jesus com a mulher samaritana (João 4). Além de bênçãos, precisamos do abençoador.  Precisamos da presença de Deus e da nossa comunhão com ele. Então, estaremos completos e eternamente satisfeitos.
A satisfação natural, material, pode mascarar uma necessidade espiritual grande e urgente. Foi o que aconteceu com Israel no tempo do profeta Amós.  O mesmo observamos no relato sobre o rico e o Lázaro e ainda na carta à igreja de Laodiceia.
A satisfação que o evangelho nos garante pode ser resumida em duas expressões de Cristo: o pão vivo e a água viva (João 6.51; 7.38), representando o próprio Jesus e o Espírito Santo. Recebendo a Cristo como Salvador e sendo cheios do Espírito Santo, teremos abundância do fruto do Espírito que é "amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio" (Gál.5.22).
Costumamos confundir felicidade com a satisfação dos nossos desejos, mas o que Deus nos oferece é muito mais. É a bem-aventurança daqueles que o conhecem e vivem eternamente na sua gloriosa presença.


Pr. Anísio Renato de Andrade

quinta-feira, 14 de maio de 2015

CONSELHOS E CONSEQUÊNCIAS



"Vem, pois, agora, e deixa-me dar-te um conselho, para que salves a tua vida, e a de Salomão teu filho" (1Rs.1.12).

Os reis e outros governantes costumam ter seus conselheiros, e isto desde os tempos mais antigos. É o que vemos na bíblia (Ed.7.14,15,28; ICr.13.1; Is.19.11; Lc.14.31).  Seus equivalentes hoje são os ministros de Estado.  O rei tem o poder, mas ele não é especialista em todas as áreas.  Uma pessoa tem autoridade, mas pode ser que a sabedoria esteja com outra, mesmo porque um príncipe poderia assumir o trono em tenra idade.  Os conselheiros vinham, muitas vezes, do monarca anterior, com toda a experiência administrativa e militar.

Autoridade sem sabedoria pode causar grandes tragédias. Para governar bem,  o rei precisava ser humilde e ouvir outras opiniões, como Faraó ouviu José e fez tudo o que ele sugeriu (Gn.41).
Diz o ditado: "Se conselho fosse bom, ninguém dava, vendia".  De fato, os conselheiros reais eram funcionários bem remunerados.

Via de regra, eram pessoas mais velhas e experientes. A bíblia se refere a eles como sábios e anciãos. A fé no sobrenatural fez com que a lista dos conselheiros de muitos reinos incluísse os magos, adivinhos e profetas.  Diante de um enigma ou desafio, todos eram convocados para uma reunião com o soberano (Gn.41.8; Et.1.13; Dn.2.2; 4.7; 5.7; Mt.2.4).

Se até  os reis precisam de conselhos, quanto mais as pessoas comuns. Até  Salomão tinha seus conselheiros (IRs.12.6).  Ele mesmo escreveu: "Não havendo sábios conselhos, o povo cai, mas na multidão de conselheiros há sabedoria" (Pv.11.14).

Muitas pessoas se julgam totalmente livres, donas do próprio nariz, pensam que podem fazer o que bem entendem. Os reis também podiam, mas, ainda assim, ouviam seus auxiliares.
Contudo, precisamos escolher bem os nossos conselheiros.  Os pais são os primeiros a exercerem essa função.  Aos filhos mais novos, dão ordens; aos mais velhos, orientações.  Da mesma forma, a bíblia começa com leis e depois passa aos conselhos no livro de Provérbios.

Quem são os seus conselheiros?  A palavra de Deus adverte a respeito do "conselho dos ímpios". Feliz é o homem que não se orienta por eles (Salmo 1.1).  O conselho deve ser pedido a pessoas experientes e exemplares, que sejam servos de Deus.  Ainda que resolvamos questões técnicas com especialistas da área desejada, seja o médico, advogado ou psicólogo, os princípios cristãos devem sempre prevalecer. 

Triste foi a experiência de Absalão, filho de Davi.  Quando quis tomar o trono do pai, ele pediu orientação a um conselheiro do palácio, chamado Aitofel. Naquela situação, tudo estava errado: pessoas más, com intenções ruins e conselhos malignos. O resultado foi a morte de Absalão (2Sm.16.20-23). 

A juventude é um período de muitas dúvidas em relação às decisões da vida. O jovem deve  ser humilde e pedir conselhos, mas é bem provável que os colegas da mesma idade não sejam os mais indicados para a tarefa, pois, via de regra, falta-lhes a maturidade e experiência necessária. 
Quando Salomão morreu, seu filho Roboão herdou o trono.  Ao invés de ouvir os conselhos dos anciãos, preferiu a opinião dos seus jovens colegas. Eles lhe sugeriram que tratasse o povo com dureza. O rei fez assim e perdeu 10 tribos de Israel, que seguiram outro líder e formaram outro reino (IRs.12.1-16).

Aconselhe-se com a pessoa certa. A bíblia está repleta de conselhos, mas pode ser que uma situação especial requeira uma resposta específica. Por isto, Deus colocou líderes no lar e na igreja.  Eles existem para ajudar os liderados a encontrarem a direção certa.  Se você é adulto,  pode e deve pedir conselhos, mas a decisão final é sua.  O líder espiritual deve aconselhar, mas não manipular. 
A decisão é sua e a consequência também. Cuidado. Escolher o mal pode ser gostoso e divertido. Depois, você poderá lutar com as consequências pelo resto da vida.  Quantas pessoas estão buscando libertação porque não pediram ou não seguiram preciosos conselhos no tempo certo.
O evangelho tem poder preventivo e corretivo. Todos sabemos que é melhor prevenir. Inclusive, é mais barato.  Prefira usar o evangelho como vacina e não como remédio. 
Seja humilde e pronto para ouvir bons ensinamentos. Um conselho pode salvar a sua vida.

Pr. Anísio Renato de Andrade