quinta-feira, 22 de outubro de 2015

ANIMAIS PUROS E ANIMAIS IMUNDOS




Regras alimentares mosaicas e suas lições espirituais.

Logo que o homem foi criado, Deus só lhe permitiu comer alimentos de origem vegetal (Gn.1.29). A restrição talvez fosse para proteger os animais até que se multiplicassem. Por outro lado, não faria sentido o sofrimento daquelas criaturas antes do pecado.
Depois do dilúvio, Deus permitiu o consumo de carne (Gn.9.3). A regra mudou de acordo com o propósito divino em cada época. O mesmo ocorreu entre o Antigo e o Novo Testamento.
No livro de Levítico, capítulo 11, encontramos uma lei especial para Israel, determinando os animais que serviriam ou não para se comer. A pureza ou a imundícia de um animal estava relacionada, geralmente, ao tipo de alimento que ele comia. Os animais herbívoros eram puros; os carnívoros, principalmente os de rapina, eram imundos.
Esta é uma caracterização das aves e dos animais da terra firme, mas  havia outros fatores em relação aos seres aquáticos e insetos.
Aquela legislação poderia parecer opressora, mas, de fato, tinha o objetivo de proteger a saúde dos israelitas, evitando contaminações, doenças, epidemias e o possível extermínio do povo de Deus. Além disso, só os animais puros serviriam para o sacrifício.
Nós, que não somos judeus, não estamos sujeitos àquelas leis. Paulo instruiu os coríntios a comerem todo tipo de carne encontrada no açougue (ICo.10.25).
Entretanto, a lei de Moisés é palavra de Deus para nós e continua sendo útil para nos ensinar profundas lições espirituais. As regras alimentares devem ser vistas dentro do principal tema de Levítico, que é a santificação. A questão dos animais puros ou imundos nos deve fazer refletir sobre coisas santas e profanas, sobre a santidade e o pecado.  É preciso observar a diferença entre a sujeira e a pureza, entre as trevas e a luz, entre o ímpio e o justo (Lv.10.10; Ez.44.23. Mal.3.18). 
O israelita poderia querer comer de todos os animais que encontrasse, mas a lei determinou limites e parâmetros. Devemos aceitar o "sim" o "não" de Deus em todas as áreas das nossas vidas. Nem tudo será aceitável diante dele.
Quais seriam os critérios para definir se um animal era próprio ou impróprio para o consumo humano? A fome é a regra? O desejo, o apetite, a necessidade? Seria a aparência do animal? Seria uma questão de experimentar para decidir? Então, o sabor era o fator determinante? Não. Nem tudo que é gostoso é bom.
Quais são os critérios que utilizamos para fazer nossas escolhas na vida? Por trás de uma boa aparência pode haver contaminações invisíveis e perigosas.  Deus estabeleceu leis para que os israelitas sequer experimentassem certos alimentos pois, uma vez instalada, a contaminação é difícil de ser removida.
Deus determinou as regras, mas não deu explicações científicas. Ele tem motivos suficientes para as proibições morais e espirituais que nos ordenou, ainda que não compreendamos. Não devemos questionar, mas obedecer.  Não adianta inventar escapes. Não adiantaria lavar o animal imundo. A impureza não é superficial. A porca lavada volta ao lamaçal (2Pd.2.22). Não podemos tornar lícito o que Deus proibiu. Não adiantaria argumentar que todos os animais foram criados por Deus. É claro que foram, mas muitos deles têm outros propósitos e não foram feitos para a nossa alimentação. O camelo é para o transporte. O cão para a segurança. O urubu para a faxina ambiental.
Em tudo isso, o mais importante não são as questões alimentares, mas os princípios espirituais que devem reger as nossas vidas, de modo que não nos contaminemos com as coisas que Deus proibiu. Que o desejo, a aparência e o sabor não sejam os parâmetros que determinam os rumos da nossa existência. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Pr. Anísio Renato de Andrade

O POÇO E A FONTE




A mulher samaritana foi buscar água e encontrou Jesus. Momentos de necessidade podem ser oportunidades de experiências com Deus. O texto de João 4 fala sobre três tipos de sede, física, emocional e espiritual, relacionadas às três partes integrantes do homem: corpo, alma e espírito. A mulher buscava satisfação na água do poço, em vários relacionamentos conjugais e numa forma religiosa de adoração, até encontrar a fonte de água viva: Jesus.
Apesar do problema conjugal da samaritana, Jesus não transformou aquele encontro num momento de aconselhamento sentimental.
Não podemos negar nossas necessidades físicas e emocionais, mas a fonte da nossa felicidade é o Senhor Jesus. A verdadeira alegria não vem das coisas materiais. É possível ser feliz andando de ônibus e estar deprimido no jatinho particular, mas com Jesus somos sempre felizes, quer sejamos solteiros ou casados, empregados ou patrões, ricos ou pobres.
Passando pelo assunto da água e dos maridos, Jesus conduziu a conversa para o tema mais importante: a espiritualidade, o relacionamento com Deus. O resto seria consequência.
A religião nos faz preocupados com lugares sagrados, objetos e aspectos formais do culto, mas a espiritualidade relaciona-se à essência, ao contato com o Pai, em espírito e em verdade. Religiosidade é uma lâmpada. Espiritualidade é luz. Religião produz muito trabalho, semelhante ao esforço para tirar água do poço. A verdadeira espiritualidade produz santidade, um modo de vida agradável a Deus, fazendo sua água viva saltar do nosso interior.
A verdadeira vida espiritual está vinculada ao conhecimento da pessoa de Jesus. Em pouco tempo, aquela mulher passou por vários estágios de conhecimento:
1-Começou reconhecendo que Jesus era um judeu (v.7).
2-Desconfiou que ele pudesse ser maior do que o patriarca Jacó (v.12).
3-Disse que Jesus era profeta (v.19).
4-Creu que ele é o Cristo, o salvador prometido (v.25,29).
Buscamos satisfação em tantos poços, mas Jesus é a fonte da água viva. Se já o conhecemos, mas ainda nos sentimos espiritualmente fracos, é porque talvez não estejamos bebendo da água que ele nos oferece. A fonte é inesgotável. Se não estamos saciados, o problema não está na fonte, mas no recipiente. A água flui em quantidade suficiente para encher um copo, uma jarra, um balde, um barril, um caminhão pipa ou uma fila deles. A intensidade da nossa busca determina o quanto receberemos. Busque ao Senhor por meio da oração, do jejum e da leitura bíblica. Precisamos buscá-lo não apenas para saciar a nossa sede  e suprir nossas necessidades, mas para sermos lavados, purificados. O propósito de Deus é que sejamos cheios da água viva, cheios da sua palavra e do seu Espírito Santo. Em seguida, virá o transbordamento, ou seja, seremos canais da graça e da unção do Senhor para abençoar outras pessoas. A água viva que Jesus nos dá torna-se um rio que flui. Poços podem ser entulhados, mas nada pode deter um rio. Assim, o poder do Senhor fluiu através da samaritana que, deixando o cântaro, foi pregar na cidade. Deste modo, o cristão torna-se uma influência transformadora para sua comunidade, povo e nação.                                   
Pr. Anísio Renato de Andrade

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

FÉ, ATITUDE E AÇÃO




Muitos se gloriam de terem uma grande fé, mas será que isso é tudo? É como se orgulhar de ter muito dinheiro sem que se faça bom uso dele. A fé não é o fim do caminho, mas apenas o início. Em Hebreus 11, temos uma lista de pessoas que se destacaram por sua fé. É importante crer, pois "sem fé é impossível agradar a Deus" (Heb.11.6). Contudo, existem naquele capítulo outros elementos indispensáveis.  Uma fé sadia é produzida pela palavra de Deus (Heb.11.3; Rm.10.17).  Ela é amparada e garantida pelo que Deus falou, seja em forma de aviso, chamado ou promessa (Heb.11.7,8,9). Além disso, a fé precisa ser bem direcionada como uma flecha que busca o alvo certo. Uma fé sem rumo, uma crença no acaso ou em falsos deuses, trará grandes decepções.
Nossa fé deve estar depositada em Deus e em Jesus Cristo. Ele mesmo disse: "Credes em Deus; crede também em mim" (João 14.1). A fé deve ser acompanhada do compromisso com Deus e da fidelidade a ele. Além de crermos até o fim, é necessário que sejamos fiéis até a morte (Ap.2.10).  Se o crente for infiel, sua fé poderá ser inútil.
Aqueles homens listados em Hebreus não tinham apenas fé, mas ela era o princípio fundamental em suas vidas, como a pedra principal de um alicerce. Temos ali diversas atitudes e ações que acompanharam a fé, combinando bem com a afirmação de Tiago: "A fé sem obras é morta" (Tg.2.26).
Abel creu e ofereceu o sacrifício.
Noé creu e construiu a arca.
Abraão creu e saiu da sua terra. Mais tarde, pela mesma fé, o patriarca se dispôs a oferecer Isaque sobre o altar.
Isaque creu e abençoou Jacó.
Jacó creu e abençoou seus filhos e adorou a Deus.
Moisés creu e renunciou aos tesouros e à glória do Egito.
Os israelitas creram e andaram em volta de Jericó durante sete dias. 
Raabe creu e acolheu os espias.
Vemos, portanto, que a fé sempre está relacionada a outras virtudes e, sobretudo, à ação. É importante orar, desde que não nos esqueçamos de agir, quando for o caso. A palavra de Deus não nos ensina uma fé passiva, mas uma crença que produz obediência à vontade do Pai. Isso pode significar, não apenas ganhos, mas também perdas. Ganhar pela fé é fácil. Difícil é renunciar.
O capítulo 11 de Hebreus poderia dizer que Deus fez tudo por causa da fé daqueles personagens, mas o texto fala muito do que eles mesmos fizeram, enfrentando trabalhos árduos e missões difíceis.  Enfim, a ação divina também se fez evidente, resolvendo o que não era possível aos homens.
A galeria dos herois da fé nos mostra uma série de experiências relacionadas a situações difíceis. É uma relação de desafios enfrentados pela fé. Quem teve vida fácil ficou fora da lista.
Muitos daqueles servos de Deus salvaram suas vidas pela fé, mas outros, pela mesma fé, foram martirizados. Isto nos mostra que o resultado principal do nosso relacionamento com Deus não se encontra neste mundo, mas na glória celestial.
Apesar de tudo, o capítulo 11 de Hebreus nos apresenta uma galeria de vencedores, cujo testemunho deve servir de exemplo para nós, de modo que tenhamos fé, atitude e ação em nossa caminhada com Cristo.                                              

            Pr. Anísio Renato de Andrade 

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O DIA DEPOIS DO FIM




"Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa" (Heb.10.36).

No Egito, quando Faraó mandou que os meninos judeus fossem mortos, Joquebede e Anrão esconderam Moisés durante 3 meses. Certamente, clamaram ao Senhor por uma saída, mas, ao final desse tempo, nada mudou. As ameaças continuavam reais. O que fazer? Colocaram o filho no rio, com todo cuidado. Não o jogaram. Não desistiram da vida. Seria o fim para Moisés?  Aos olhos humanos, parecia que sim, mas o rio era o caminho do palácio. Pouco tempo depois, o bebê voltou para casa e a mãe passou a receber salário para cuidar dele. Aquele foi um maravilhoso exemplo de restituição.

No tempo de Ester, os judeus foram condenados por motivo fútil, pela vaidade de Hamã. A condenação foi assinada pelo rei Assuero e não podia ser revogada. Portanto, a morte era certa. Parecia o fim, mas, apesar do cenário desolador, Ester buscou ao Senhor e falou com o rei. Um novo decreto foi emitido dando aos judeus o direito de se defenderem. Houve então um grande livramento. O dia de tristeza transformou-se em festa.

Marta e Maria eram amigas de Jesus, mas, quando seu irmão Lázaro adoeceu, o Mestre não foi visitá-lo. Lázaro morreu e Jesus não chegou para o sepultamento. Parecia o fim. É possível que elas tenham ficado decepcionadas com Jesus. Depois de quatro dias, ele chegou, muito atrasado, diriam alguns, mas seu propósito era maior do que todas as expectativas. Lázaro ressuscitou e todos glorificaram a Deus.

O próprio Jesus é o nosso maior exemplo de esperança.  Seus ensinamentos e milagres o colocaram em evidência. Ele poderia ter tido uma carreira de sucesso como rabino ou até mesmo como rei de Israel, mas os fatos tomaram outro rumo.
Jesus foi perseguido, mas não reagiu.
Sendo preso, não fugiu. 
Condenado, não se livrou.
Crucificado, não desceu da cruz.
Enfim, o Mestre morreu.
Aquele parecia o seu fim, mas Jesus ressuscitou, subiu ao céu e, em breve, voltará em glória.

Quando tudo parece acabado, Deus pode nos garantir um recomeço.
Temos necessidades, expectativas, desejos e imaginamos um prazo para as nossas realizações, mas Deus tem o seu tempo e o seu modo. Nem sempre o Senhor age como gostaríamos. Pode ser que nem tudo dê certo agora, mas o evangelho nos anuncia a vida eterna na presença do Pai, onde nada dará errado.  Depois do fim, o milagre é maior. Sempre há esperança para quem crê em Deus.
Quando acabar a pista, estaremos voando.

Pr. Anísio Renato de Andrade. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

ABORTO É HOMICÍDIO




Será que um cristão pode praticá-lo ou apoiar sua legalização?
Será que a vida humana só começa no nascimento?
O salmista disse: "Tu és meu Deus desde o ventre da minha mãe" (Salmo 22.10).
De acordo com a lei, nós temos que respeitar até os cadáveres, caso contrário cometemos o crime de vilipêndio. Não haveríamos de respeitar muito mais um feto vivo? O aborto, além de ser pecado, é um ato de extrema crueldade contra um ser indefeso. Trata-se do pior tipo de homicídio que existe, pois é cometido pela própria mãe.
Os abortos realizados pelas sociedades chamadas "civilizadas" não são melhores do que os sacrifícios humanos dos rituais macabros ou do que o infanticídio praticado por algumas tribos selvagens.
Ao que chamamos "feto", a bíblia chama de "criança" (Lc.1.44).
No ventre, a criança já pode ser cheia do Espírito Santo (Lc.1.15). Notamos, portanto, quanto Deus a valoriza.
No ventre, os profetas eram vocacionados para o ministério (Is.49.1; Gal.1.15).
Considero que o aborto é errado em toda e qualquer situação. Se, para salvar a mãe, decide-se matar o feto, continua sendo homicídio, mesmo que por um motivo forte. Matar em legítima defesa é compreensível, mas não deixa de ser assassinato.
Em caso de estupro, é natural que a mãe não queira o filho. Poderá, portanto, conduzi-lo à adoção. Se a mãe não suportar a gravidez e resolver interrompê-la, ainda assim é homicídio, mesmo que o motivo seja compreensível. Se não condenamos à morte o estuprador, deveríamos condenar o filho inocente?
Ainda que o feto não tenha chance de sobreviver, não nos compete tirar a vida que Deus deu. Que ela dure pelo tempo que ele quiser, mesmo que sejam meses, dias ou horas.
O que acontece, na maioria das vezes, é apenas o assassinato em nome do egoísmo. A pessoa mata o filho porque não quer assumir a responsabilidade que ele representa, não quer arcar com as despesas ou deseja encobrir o pecado sexual cometido. Quem tiver essa dificuldade evite a gravidez, por meio de métodos não abortivos, ou evite o sexo.
Vivemos numa sociedade onde cortar uma árvore ou matar um morcego são crimes ambientais. O aborto de um ser humano, porém, está deixando de ser crime em vários países. Este é um exemplo claro da inversão de valores que estamos vivenciando. Todavia, a pretensa legalização do pecado não muda a situação diante de Deus, pois o Tribunal de Cristo não é regido pela legislação humana.
Hoje em dia, muita gente é semelhante ao profeta Jonas, que tinha compaixão de um pé de abóbora, mas não de um ser humano.
Aos que já praticaram o aborto, mas se arrependeram, Deus está pronto a perdoar. O amor de Deus é maior do que o pecado humano. Entretanto, a bondade divina não deve ser usada como álibi para a prática do mal, pois situações desse tipo podem marcar a consciência e a memória por toda a vida.
A ideia ou desejo de abortar não deve sequer ser pronunciada, a não ser que se esteja buscando ajuda para a solução do problema, pois, mesmo que o ato não se concretize, a simples informação causará profundo e grave sentimento de rejeição no filho, caso chegue ao seu conhecimento em qualquer época da sua vida.
Por uma questão de coerência, quem defende o direito dos pais matarem os filhos deveria também defender o direito dos filhos matarem os pais.


Pr. Anísio Renato de Andrade

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O MINISTÉRIO PROFÉTICO





No jardim do Éden, Deus falava diretamente com Adão e Eva (Gn.2 e 3). O pecado deu início a um processo de afastamento entre o homem e Deus. Ele falou também com Caim, antes e depois da morte de Abel (Gn.4).  (Se Caim estivesse aqui hoje, talvez seria muito valorizado, pois Deus falou com ele).  Dali em diante, a comunicação de Deus com os homens foi se tornando cada vez mais distante, indireta e rara. A humanidade se multiplicou, mas o Senhor falava com poucas pessoas, como Noé, Abraão, Isaque e Jacó. 
Em muitas situações, ao invés de falar com as pessoas, Deus lhes enviava um anjo, como aconteceu com Abraão e Ló: comunicação indireta.
Depois, tornaram-se frequentes as mensagens através de sonhos.  A bíblia não diz que José do Egito ouviu a voz de Deus alguma vez, mas a mensagem lhe chegou através de sonhos (Gn.37). Da mesma forma Deus se comunicou com Abimeleque (Gn.20.6), com Faraó (Gn.41)  e seus servos:  o copeiro e o padeiro (Gn.40).
Nesse contexto da comunicação indireta de Deus com o homem é que surge a necessidade do ministério profético como um porta-voz.  O primeiro profeta “registrado” na bíblia foi Enoque (Jd.14). O segundo foi Abraão (Gn.20.7).  Deus declarou que ele era profeta. Não foi uma auto-proclamação, mas uma vocação divina.
O terceiro profeta declarado pela bíblia é Moisés (Dt.34.10). Nessa época, os profetas eram raros.
A lei de Moisés definiu em detalhes o funcionamento do ministério dos levitas e sacerdotes (Num.3; Num.4; Ex.28), mas não fez o mesmo com o ministério profético. Por isso, dizemos que o profeta é um ministério não regulamentado, “fora do script”.  A lei não determinava sua linhagem, idade,  atividades, roupas ou rituais.  O profeta não dependia de vínculo genealógico, eleição ou direito adquirido. Sua manifestação dependia inteiramente de Deus. Por isso, encontramos até um profeta gentio no antigo testamento: Balaão.
Levitas e sacerdotes estavam em constante atividade em Israel, podendo ser encontrados em determinados lugares e horários. Os profetas eram incertos.  Em determinadas épocas, não havia profeta em atividade.  O profeta era “previsto em lei”, porém imprevisível, pois ninguém sabia quem ele seria, nem quando ou onde apareceria.  Como disse um aluno: o profeta era “uma carta na manga de Deus” para certas situações.  
A respeito dos profetas, Moisés só determinou uma coisa: a sentença de morte para aqueles cujas profecias não se cumprissem (Dt.13.1-5; 18.20). Embora este mandamento não esteja em vigor hoje, temos nele um forte ensinamento sobre a seriedade da profecia.  Não podemos falar em nome de Deus sem que ele nos tenha mandado. Não podemos matar os falsos profetas, mas nada impede que Deus lhes mate.
O profeta existe para o tempo da crise. Nos momentos de maior degradação pecaminosa em Israel, eles se manifestavam. Por isso, sua aparição não era bem vista. Via de regra, o profeta é um sinal de que as coisas não estão bem.  Eles não vinham para elogiar ou agradar, mas para  repreender. Por isso, não eram queridos, amados, honrados, exaltados ou premiados.  Eram temidos (ISm.16.4), rejeitados, desprezados, odiados, perseguidos e mortos (Mt.5.12; 23.29-35). Por esta causa, alguns vocacionados não queriam ser profetas (Jr.1.5-6; Am.7.14).
Quem fica feliz com a chegada do cobrador, do interventor ou do oficial de justiça? Ninguém. Assim também ocorria com a chegada do mensageiro de Deus.  Os profetas do Antigo Testamento tinham a missão de cobrar o cumprimento da lei de Moisés.
Eles incomodavam muita gente. A autoridade que Deus lhes conferia era tanta que repreendiam até os reis. Natã repreendeu Davi. Elias repreendeu Acabe. Muito tempo depois, João Batista repreendeu Herodes.  Se fosse hoje, as pessoas lhes diriam: “Você está me julgando”, mas a palavra do profeta não é julgamento, senão um aviso para que a pessoa não seja condenada por Deus.
Depois da morte de Moisés, o povo de Israel viveu um período de poucas profecias.  Nos dias do sacerdote Eli, a palavra do Senhor era muito rara (ISm.3.1). Então, foi  levantado o profeta Samuel. Naquele tempo começava um movimento chamado “profetismo”.  Surgiram escolas de profetas e esse ministério floresceu em Israel, como sinal de que as coisas não iam bem.
Vieram Natã, Gade, Elias, Eliseu e muitos outros.  Surgiu então, no contexto da monarquia, a figura do profeta profissional, um funcionário da corte que recebia salário para profetizar o que o rei queria ouvir. Por exemplo, os ministros de Estado têm sempre uma palavra otimista em relação à economia, mas os analistas independentes falam a verdade claramente. Assim acontecia no caso dos profetas. Elias, por exemplo, era bem diferente dos profetas de Baal, que viviam para agradar Jezabel.  Assim, enquanto centenas de falsos profetas viviam nos palácios, alguns verdadeiros se escondiam nas cavernas.  Uma exceção interessante foi Daniel: um profeta verdadeiro no palácio. Ele era um político honesto.
Além de falar a mensagem de Deus, alguns profetas escreveram seus oráculos.  Algumas vezes, Deus mandou que escrevessem (Ex.17.14; 34.27; Is.8.1; Jr.30.2; Hab.2.2; Ap.1.11). De outro modo, suas palavras não chegariam a nós. Vemos, portanto, como é importante escrever a mensagem que temos a transmitir, pois nós passaremos, mas ela continuará alcançando vidas. Escrever a profecia era também um ato de ousadia e coragem, pois ficaria muito mais fácil conferir seu cumprimento e até condenar o profeta à morte se a sua palavra fosse mentirosa.
O ministério profético não ficou restrito ao Antigo Testamento.  Depois de um longo período sem profecias, aproximadamente 400 anos, apareceu  o profeta  João Batista. A surpresa foi tão grande que toda a população de Jerusalém queria vê-lo e ouvi-lo (Mt.3).  Embora fosse da família sacerdotal, João Batista assumiu aquele ministério “fora do script”. Sua roupa era feita de pelos de camelo, que nem de longe lembrava o linho das túnicas sagradas (Mc.1.6). Ao invés de comer os pães da proposição, comia gafanhotos e mel silvestre.  Era uma figura chocante, talvez até ofensiva, pois, de acordo com a lei,  o camelo era um animal imundo.  Sua mensagem também não era agradável, pois chamava o povo à confissão de pecados e ao arrependimento.
Depois, veio Jesus, que era também profeta (João 4.44). No Novo Testamento temos ainda: a profetisa Ana (Lc.2.36),  o profeta Ágabo (At.21.10),  alguns anônimos (At.13.1) e, finalmente, João, com a profecia do Apocalipse.
Paulo disse que Deus colocou na igreja: Apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres (Ef.4.11).  Não há razão para supormos que o ministério profético tenha acabado.  Ele continua em nossos dias, trazendo a mensagem de Deus, repreendendo os pecadores e anunciando os propósitos do Senhor.
Profeta não é sinônimo de pregador. Alguém só pode profetizar o que Deus lhe falou. Repetir o que a bíblia diz não é profetizar.  Falar o que eu quero que aconteça na vida de alguém não é profetizar. 
Como dissemos, a comunicação de Deus com o homem tornou-se muito indireta. Por exemplo: Deus falou com o anjo, que falou com Daniel, que escreveu a profecia, que hoje eu leio pra você ouvir.  Que comunicação mais indireta! É válido ouvir a mensagem de Deus assim, mas  precisamos de uma comunhão mais próxima com o Senhor.
O pecado de Adão iniciou um processo de afastamento entre o homem e Deus. A obra de Cristo tem o propósito de nos levar no sentido inverso, aproximando-nos do Pai.  Por isso, Tiago escreveu: “Chegai-vos a Deus e ele se chegará a vós” (Tg.4).
Qual é o caminho? A busca da intimidade com Deus.  Abraão foi chamado profeta porque era amigo de Deus (Is.41.8; Tg.2.23; Gn.18.17).  Contamos nossos segredos a qualquer pessoa? Não, mas apenas aos amigos íntimos. Deus também faz assim (Am.3.7; Sal.25.14).
Precisamos buscar a intimidade com Deus. Jesus disse que os fariseus gostavam de orar nas ruas, praças e sinagogas. Então, ele ensinou os discípulos a orarem onde só Deus pudesse vê-los (Mt.6). Esta é uma forma de buscar intimidade com Deus. Este é o caminho do ministério profético.
O apóstolo João era o discípulo mais próximo de Jesus.  Até no momento da crucificação, lá estava ele. Resultado: recebeu as maiores revelações registradas na bíblia, o Apocalipse.
Busquemos ao Senhor, pois ele quer nos usar como profetas nesta geração.


Pr. Anísio Renato de Andrade.

MARAVILHOSA GRAÇA






O filho pródigo foi embora por direito, mas voltou pela graça.

Graça é benevolência; é a boa vontade de Deus para conosco, sem obrigação de sua parte nem méritos da nossa. É o favor imerecido.
Quando Adão e Eva pecaram, veio o castigo. Entretanto, a graça se manifestou na promessa de um descendente para esmagar o inimigo e quando, num gesto inesperado de carinho, Deus fez roupas de pele para o casal (Gn.3).
Logo depois, o pecado se multiplicou, provocando a ira divina. "Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor" (Gn.6.8).  Esta benevolência se consumou na salvação através da arca.
Antes que Sodoma fosse destruída, o favor divino se revelou na visita dos anjos que retiraram Ló da cidade (Gn.19). 
Pela graça, Israel foi liberto do Egito. Mais tarde, o pecado fez com que fossem levados cativos para a Babilônia, mas a graça se manifestou mais uma vez, quando o remanescente voltou à terra prometida (Ed.9.8).
No Novo Testamento, a graça está personificada no Messias: "A lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo" (João 1.17). "Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça" (Ef.1.7). "Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens" (Tito 2.11).
A morte de Jesus encerrou a dispensação da lei mosaica e iniciou um tempo especial da graça, que pode ser visto como a porta da salvação, aberta até que Jesus volte. Contudo, essa oportunidade é fechada para cada indivíduo no momento de sua morte. 
A salvação não pode ser conquistada pelo homem, mas recebida gratuitamente (Rm.6.23; At.15.11). "Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie" (Ef.2.7-9).  A graça dá; a fé recebe. Em todas as citadas manifestações da bondade divina durante a história bíblica, havia possibilidade de rejeição por parte do homem.
A graça não é automática em seus efeitos, pois, se assim fosse, toda a humanidade seria salva. Ela é extensiva a todos os homens (Rm.5.18), mas muitos a rejeitam. É necessário que haja uma resposta humana positiva, recebendo Jesus Cristo como salvador (João 1.11-12; Rom.10.9). Sem isso, a graça torna-se inútil para o indivíduo.
"E nós, cooperando também com ele, vos exortamos a que não recebais a graça de Deus em vão. Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação" (2Co.6.1-2).
Nada há que possamos fazer para comprar ou conquistar uma só bênção. Orações e jejuns são formas de manifestarmos nosso desejo, mas Deus só nos atende pela graça. Não é razoável que alguém se apresente ao Senhor para exigir direitos ou estabelecer condições.
Também não podemos confundir a graça de Deus com aprovação ao pecado. É o que muitos têm feito, supondo que seus erros serão simplesmente desconsiderados. Não é assim. A graça não dispensa o arrependimento, o pedido de perdão e a mudança de vida, mas dispensa pagamentos, penitências, indulgências, compensações e sacrifícios expiatórios, pois a morte de Cristo foi suficiente neste sentido.
Judas, irmão de Tiago, advertiu acerca dos falsos mestres , dizendo:
"Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus" (Jd.4).
A graça não significa licença para pecar, mas a disposição divina para receber o pecador arrependido.
A mesma deturpação foi percebida por Paulo, que disse:
"Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde? De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele"? (Rm.6.1-2).
Ao invés de permanecermos no pecado, devemos permanecer na graça (Gal.5.4), ou seja, permanecer no caminho do Senhor, buscando a santificação e deixando de lado a auto-confiança, sabendo que dependemos de Deus  a cada instante.
"E, despedida a sinagoga, muitos dos judeus e dos prosélitos religiosos seguiram Paulo e Barnabé; os quais, falando-lhes, os exortavam a que permanecessem na graça de Deus" (At.13.43).  Permanecer na graça é como ficar na arca até que o dilúvio termine. Quem não permanece na graça cai no juízo.
Queremos tantas coisas do Senhor, mas precisamos reconhecer que a sua graça é suficiente, pois sem ela estaríamos destruídos. Além disso, o que vier é lucro.
"E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza" (2Co.12.9).
"A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós. Amém" (Ap.22.21).


Pr. Anísio Renato de Andrade