quarta-feira, 6 de julho de 2016

A ORAÇÃO, SUA EFICÁCIA E SEUS LIMITES




Um dos momentos mais marcantes da infância é quando a criança começa a falar. As primeiras palavras são celebradas pelos pais, mesmo que não sejam pronunciadas com perfeição. A capacidade de se comunicar é o que importa. A partir daí, o vocabulário aumenta rapidamente e chega um dia em que a criança fala até dormindo. Com poucos anos de vida, já é preciso controlar os pequenos falantes: “Não fale de boca cheia”; “Não converse com estranhos”; “Desligue esse telefone”.  Depois de aprender a falar, a criança precisa aprender a evitar determinadas palavras; aprender o modo de falar, a hora certa, o tom de voz e o momento de calar. Bem, são objetivos para a vida toda.

Da mesma forma, os filhos de Deus precisam aprender a falar com o Pai por meio da oração. A bíblia nos mandar orar sem cessar (1Tss.5.17), mas a oração deve ser pautada por uma série de parâmetros que a tornam boa e eficaz. Além de orar, precisamos saber a quem orar, por quem, por quê, para quê, como, quando e onde.

Ore todos os dias. Fale com Deus e não com os ídolos, santos, guias, espíritos, demônios, anjos, fadas ou duendes. A oração bíblica tem um alvo certo: o Pai celestial (Mt.6.9).
Certa vez, os discípulos disseram a Jesus: “Ensina-nos a orar” (Lc.11.1).  Logo, a oração deve ser aprendida. Não me refiro a aprender uma oração que alguém compôs, mas à necessidade de cada pessoa aprender a formular suas próprias orações. Petições erradas são indeferidas. “Pedis e não recebeis porque pedis mal” (Tg.4.3). Aprenda a orar. A oração não pode ser um falatório vão, uma espécie de verborragia inútil.

Antes de falar, o bebê passa meses ouvindo. Quem não ouve não fala. Quem ouve mal fala mal. Nosso trato com a bíblia, a palavra de Deus, definirá a qualidade das nossas orações.
“O que desvia os ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável" (Pv.28:9).

Podemos aprender com tantas preces registradas nas Escrituras, especialmente nos Salmos, mas, além disso, todo o conteúdo bíblico servirá como base das nossas orações, inclusive mostrando o que não devemos dizer perante Deus: murmurações, acusações, votos impensados e “determinações” (como se pudéssemos ordenar a ação divina), etc.

Tudo começa pela motivação correta. Não sejamos como os fariseus, que faziam da oração uma forma de exibição de sua pretensa espiritualidade (Mt.6.5-13). Não seria de se esperar que obtivessem alguma resposta do céu.

Precisamos saber que a oração é um ingrediente, um componente importante em nossa espiritualidade, mas não o único. É como uma engrenagem que, sozinha, não constitui um motor.  Está escrito:

“E se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra” (2Cr.7.14).

A oração é importante, mas não é tudo, assim como um relacionamento é mais do que a comunicação. Devemos observar no versículo citado as seis ocorrências da conjunção aditiva “e” que indica a “soma” dos vários elementos da frase para se chegar a um resultado. O povo de Deus precisa “se humilhar e orar e buscar e se converter”. Temos a tendência de colocar o foco em uma coisa e desprezar as outras, mas, nesse contexto, todas são importantes.
Em alguns momentos, a auto-humilhação tem o seu lugar, por exemplo, quando precisamos reconhecer nossos pecados, confessar e pedir perdão. Sem isso, não avançaremos em nossa espiritualidade. A oração sem humildade é apenas um discurso arrogante e inútil (Lc.18.10-14).

Precisamos orar e buscar a face de Deus. Orar e buscar não são sinônimos. A busca inclui a oração, mas é uma palavra que envolve muito mais, pressupondo necessidade, importância, objetivo, esforço, persistência e a expectativa do encontro (Lc.15.4,8). Existe ainda a intensidade da busca: “Buscar-me-eis e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração” (Jr.29.13).  Quem busca ora, jejua, levanta pelas madrugadas, renuncia o pecado, lê a bíblia, frequenta os cultos, pede perdão, ora no templo, no monte, em casa, insiste e persiste até obter a resposta.

Orar é imprescindível, mas existem muitas outras coisas que precisamos fazer. Se a oração bastasse, Jesus não diria “Ide e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc.16.15).

A oração não é um fim em si mesma, mas visa respostas e resultados mediante as ações divinas em nosso favor. Orações não são palavras mágicas. Sua eficácia não está no uso das palavras corretas (embora devamos evitar as erradas), mas na qualidade do nosso relacionamento com Deus.  É importante falar com o Senhor, mas Caim também falou e nem por isso foi perdoado e salvo. Afinal, ele não pediu perdão. Orou errado (Gn.4.13-14).

A qualidade da oração não está na quantidade, nas repetições, nos gritos, nas palavras bonitas, em se fazer um discurso ou relatório para Deus, trazendo explicações, como se ele precisasse delas.

É importante saber que a eficácia da oração tem limites. A oração do justo pode muito (Tg.5.16), mas não pode tudo. Devemos orar, mas algumas coisas não se resolvem pela oração. Precisamos agir, quando for o caso e estiver ao nosso alcance. Deus não costuma fazer o que é da nossa responsabilidade.

“Então disse o Senhor a Moisés: Por que clamas a mim? Dize aos filhos de Israel que marchem” (Ex.14.15).

A oração em favor de outra pessoa chama-se intercessão, mas não devemos descansar nessa possibilidade como se pudéssemos terceirizar nosso relacionamento com Deus.
Jó demonstrou grande zelo oferecendo ao Senhor o sacrifício em favor dos filhos, mas Satanás veio e os matou (Jó 1.5,18,19). O que deduzimos disso? Os filhos de Jó não eram filhos de Deus e não foram preservados pela intercessão paterna.

Quando a mulher está grávida, ela “come por dois”, como se costuma dizer, mas, depois do nascimento, o filho tem que se alimentar, ainda que seja auxiliado nos primeiros meses. Assim acontece no crescimento espiritual. Eu não posso comer, beber, dormir, respirar ou tomar remédio por você. Assim, todo cristão precisa e deve ler a bíblia, orar, etc.
Jesus orava pelos discípulos (João 17), mas um dia, ele lhes disse: “Vós orareis...” (Mt.6.9). A intercessão de Cristo e do Espírito Santo são fundamentais (Is.53.12; Heb.7.25; Rm.8.26), mas não substituem nossas próprias orações. O advogado fala em defesa do réu, mas a confissão é pessoal (1Jo.2.1; 1Jo.1.9). 

Precisamos saber que algumas orações, por melhores que sejam, podem ser inúteis em virtude da liberdade de escolha que as pessoas têm, por exemplo, no que diz respeito ao casamento e à conversão.
Minha oração pode não evitar o pecado de outra pessoa nem garantirá sua salvação, mas pode ajudar a evitar o meu próprio pecado. Jesus disse que os escândalos viriam. Não adianta orar contra eles. O que posso fazer é cuidar para que eu mesmo não os provoque.

Outra questão importante é lembrar que o plano de Deus é superior. Jesus orou, dizendo:

“Meu Pai, se possível, afasta de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mt.26.39).

O cálice não foi afastado. Jesus mostrou que podemos apresentar nossas angústias e desejos ao Pai. Você não está impedido de pedir o que quiser, mas não significa que será sempre atendido.
Os propósitos de Deus não podem ser impedidos, a não ser naqueles casos em que ele mesmo deixou a possibilidade de mudança pelo arrependimento, como ocorreu em Nínive.
Nenhuma oração impedirá o Apocalipse, nem converterá o diabo nem mudará o passado. Depois do adultério com Bateseba, Davi orou muito para que o filho não morresse, mas a consequência do pecado não seria aplacada pela oração. Deus não está limitado neste assunto, mas os efeitos dos nossos erros geralmente permanecem.

Portanto, vigie para que o mal não aconteça, quando for de sua competência evitá-lo. A oração não impedirá que colhamos o que foi semeado.
A vigilância é um importante complemento da oração. A falta de vigilância inutiliza as melhores armas.

Muitas orações são rejeitadas por Deus, quando associadas à desobediência (Pv.28:9). A oração do justo é eficaz (Tg.5.16), mas o pecado bloqueia a comunicação com Deus, que somente será recuperada mediante a confissão e o pedido de perdão. Não é assim também entre os homens, quando uma ofensa os separa?

Se alguém não quer se reconciliar com Deus, sua oração torna-se pecado (Salmo 109.7).

“Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal” (Is.1.15-16).

Em situações assim, até a intercessão pode ser rejeitada. É o caso da oração proibida:

“Jeremias, não ore por este povo nem faça súplicas ou pedidos em favor dele, nem interceda por ele junto a mim, pois eu não o ouvirei” (Jr.7.16).

“Se alguém vir pecar seu irmão, pecado que não é para morte, orará, e Deus dará a vida àqueles que não pecarem para morte. Há pecado para morte, e por esse não digo que ore” (1João 5.16).

O propósito deste estudo não é nos tirar a motivação para orar, mas, ao contrário, nos estimular a uma vida de oração intensa, correta e eficaz.

“E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve. E, se sabemos que nos ouve em tudo o que pedimos, sabemos que alcançamos as petições que lhe fizemos” (1 João 5.14-15).


Pr. Anísio Renato de Andrade

terça-feira, 17 de maio de 2016

O SEMEADOR, A SEMENTE E O SOLO




Disse Jesus: "O semeador saiu a semear" (Mateus 13.3). Não se espera que ele semeie dentro de casa. É preciso deixar a zona de conforto para fazer o trabalho. O comodismo impede grandes realizações.
Em primeiro lugar, a parábola refere-se ao próprio Jesus, que deixou a sua glória e veio à terra trazer as boas novas de salvação. Os primeiros versículos do mesmo capítulo dizem que ele saiu de casa naquele dia e começou a pregar.
A parábola ainda nos diz que uma parte da semente caiu à beira do caminho e foi comida pelas aves; outra caiu entre as pedras e brotou, mas a planta foi queimada pelo sol; outra parte caiu entre os espinhos, que a sufocaram, mas algumas sementes caíram em boa terra e produziram com abundância.
Será que o semeador não conhecia o terreno? Sim, ele conhecia. Jesus não estaria falando de um profissional desqualificado, distraído ou irresponsável. Nós, na qualidade de pregadores do evangelho, podemos não conhecer os nossos ouvintes, mas Jesus é o semeador que conhece bem o solo do coração humano. Se ele podia lançar todas as suas sementes em boa terra, por que não o fez? Para dar oportunidade a todos. Por isso ele disse: "Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura" (Mc.16.15).
Se a semente não brotou, se os resultados não vieram, ninguém pode culpar o semeador ou a semente. O semeador é bom. A palavra de Deus é a boa semente, mas que tipo de solo nós somos? Cada um deve examinar a si mesmo e não transferir a culpa para outra pessoa. O erro de muitos é esperar um fruto que não corresponde à natureza da semente. É o caso de quem tem uma visão materialista do evangelho.
O solo pedregoso se caracteriza pela superficialidade. A semente não penetra. É o coração duro, apesar da aparente receptividade.
O solo espinhoso já está ocupado por uma planta. Jesus disse que os espinhos representam os cuidados desta vida e sedução das riquezas. Não existe espaço para a divina semente.
O solo à beira do caminho representa aqueles que não entendem a mensagem e isto se torna oportunidade para a ação de Satanás (Mt.13.19).
Naturalmente, todos se consideram boa terra. Difícil é alguém reconhecer suas pedras, espinhos ou falta de compreensão.
Diante desses fatos, surge a incômoda pergunta O solo pode mudar? Se isto não fosse possível, estaríamos anulando a esperança que o evangelho anuncia.
Se na agricultura humana existem tratamentos para melhorar o solo, certamente o agricultor celestial, que é também nosso Pai, tem seus meios para nos transformar (João 15.1), mas o tratamento pode ser árduo e significar perdas. Permitir que Deus arranque pedras e espinhos é a difícil decisão de quem deseja ser uma boa terra. Este processo envolve a disposição para ouvir a repreensão e abrir mão de coisas, relacionamentos e hábitos condenados pelas Escrituras. Muitos rejeitarão tamanha intervenção em suas vidas. Foi o caso do jovem rico que precisava renunciar à sua riqueza para seguir o Mestre. Aquele episódio mostrou que a mudança do solo é possível, porém difícil.
Aos que aceitarem o tratamento e a boa semente o Senhor garante uma grande colheita.
Pr. Anísio Renato de Andrade

sábado, 16 de janeiro de 2016

NOMES E IDENTIDADES



Depois de criar cada coisa, a primeira iniciativa de Deus foi dar-lhes um nome. À luz, Deus chamou dia e às trevas, noite. Ao firmamento, Deus chamou céu; à porção seca, terra e às águas, mares (Gn.1.5-10).  Deus deu nome a Adão (Gn.5.2) que, por sua vez,  nomeou os animais (Gn.2.20) e também a sua esposa (Gn.3.20).  Até hoje, quando nasce uma criança, uma das primeiras providências é dar-lhe um nome de acordo com o que ela é, homem ou mulher. Identificação e identidade são importantes para não confundirmos as coisas ou as pessoas. A indefinição não é boa.
O próprio Deus tem vários nomes (Elohim, Javé, Adonai, El-Shaday, etc), os quais foram surgindo no relato bíblico, sempre relacionados à revelação progressiva da natureza divina.  Diante da sarça ardente, Moisés perguntou pelo nome do Senhor. A resposta foi “Eu Sou”, um nome que revela a autossuficiência de Deus.
No Novo Testamento, somos ensinados a chamar o Senhor de “Pai” e aprendemos também sobre o nome que está acima de todos os nomes: Jesus, pelo qual somos libertos, curados e salvos.
Como disse Salomão, “Melhor é o bom nome do que o precioso perfume” (Ec.7.1).  O nome carrega uma história, uma reputação, sendo motivo de orgulho ou vergonha. Pode representar direito e autoridade, abrir e fechar portas, tornando-se um patrimônio a ser preservado. Em nossa sociedade, temos o conceito do nome “limpo” ou “sujo”, que possibilita ou impede a obtenção de crédito.
Atualmente, os nomes também podem ser valiosas marcas comerciais, quando relacionados à excelência de produtos e serviços.  
Os nomes deveriam sempre estar vinculados à identidade, ao caráter e à natureza das coisas e pessoas, mas, infelizmente, nem sempre é assim.  Alguns são enganosos, como acontece com um cachorro chamado Tigre. Hoje em dia, encontramos homens com nome de mulher e vice-versa. Na Internet, existe a possiblidade de se utilizar um “nickname” ou apelido que esconde a identidade, funcionando como proteção ou disfarce.
Precisamos ser cautelosos, pois muitos rótulos bons podem ocultar um conteúdo ruim ou  até venenoso.  A bíblia contém exemplos desse tipo. “Babel” significa “porta de Deus”, mas era apenas um empreendimento humano.  O nome “Judas” é derivado de “Judá”, que significa “louvor”, mas o caráter do apóstolo traidor não correspondia ao seu bom nome. 
Em nossos dias, as nomenclaturas são mudadas com o intuito de enganar ou atenuar a gravidade de alguma coisa. Eufemismos pretendem tornar o pecado mais suave e aparentemente inofensivo. Um nome novo dribla bloqueios psicológicos e sociais relacionados ao antigo.  Assim,  a prostituta tornou-se “garota de programa”; adultério virou “caso”; roubo é “desvio de verba” e a pornografia chama-se agora “nudes”.  Podem trocar o rótulo da cachaça, mas a queda do bêbado continua igual.
“Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo” (Isaías 5.20).
Até mesmo uma religião ou seita pode ter um nome maravilhoso que esconde uma doutrina maligna.
Além do nosso nome pessoal, ganhamos ou incorporamos muitos títulos, adjetivos e substantivos, mas qual é a nossa natureza? Quem somos e o que fazemos?  Isto é o que, de fato, interessa.
Detalhe importante é que ninguém deve dar nome a si mesmo, mas recebê-lo de outrem após um procedimento natural de reconhecimento. Portanto, a primeira atitude diante de alguém que se auto-intitula deve ser de desconfiança seguida, talvez, por um pedido de comprovação. 
“Puseste à prova os que dizem ser apóstolos e não são, e tu os achaste mentirosos” (Ap.2.2).
“Mas tenho contra ti que toleras Jezabel, mulher que se diz profetisa, a ensinar e enganar os meus servos” (Ap.2.20).
Precisamos tomar cuidado com a ilusória satisfação que os bons títulos proporcionam. Eles podem ser úteis e necessários, mas não devem nos impressionar, sujeitando-nos a possíveis enganos. Respeite com cautela e observe. Jesus disse que a árvore boa produz frutos bons, mas a árvore má produz frutos maus (Mt. 7.15-23). Não sejamos como algumas árvores que precisam de placas identificadoras, mas tenhamos bons frutos que testifiquem a nosso respeito. 
Triste foi a situação do líder da igreja de Sardes, sobre o qual o Senhor Jesus disse: “Tens nome de que vives, mas estás morto” (Ap.3.1).
Contudo, a palavra de Deus nos traz esperança.
Diante de seu pai, Jacó disse “Eu sou Esaú”, mas, diante do anjo, precisou confessar “Eu sou Jacó”, que significa “suplantador”. Precisamos assumir diante do Senhor nossa natureza e nossos erros. Então, ele pode nos tocar e transformar. Naquele encontro transformador, o Senhor disse “Não te chamarás mais Jacó, mas Israel; pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens, e prevaleceste” (Gn.32.28).
Da mesma forma, Deus mudou o nome de outros personagens bíblicos, como Abraão, Sara e Pedro, demonstrando a mudança realizada em suas vidas. 
O propósito do evangelho é nos transformar, de modo que nos tornemos cada vez mais parecidos com Jesus.  Quando este processo terminar, receberemos um novo nome, por ocasião da nossa entrada na glória celestial.
“Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer darei a comer do maná escondido, e dar-lhe-ei uma pedra branca, e na pedra um novo nome escrito, o qual ninguém conhece senão aquele que o recebe” (Ap.2.17).
“A quem vencer, eu o farei coluna no templo do meu Deus, e dele nunca sairá; e escreverei sobre ele o nome do meu Deus, e o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém, que desce do céu, do meu Deus, e também o meu novo nome” (Ap.3.12).


Pr. Anísio Renato de Andrade

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

O TEMPO E AS EXPECTATIVAS





Depois da ressurreição de Cristo, os discípulos tiveram suas esperanças renovadas no sentido de verem Israel liberto de Roma. Então, perguntaram ao Mestre:
"Senhor, restaurarás tu neste tempo o reino a Israel? E ele lhes disse: Não vos compete saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder. Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra" (At.1.6-8).
Quando se aproxima o final do ano, muitas pessoas intensificam suas orações, desejando que Deus as abençoe "ainda neste ano" por meio de uma realização de ordem material, sentimental ou profissional.  Querem um emprego novo, um namoro, um casamento ou um dinheiro extra.
Depois, quando começa o ano novo, esperam que aconteça tudo o que não aconteceu antes, como quem diz: "Tem que ser agora".  
O ano passa e algumas coisas acontecem, outras não, e a expectativa se concentra no ano seguinte.
É claro que Deus sempre pode nos abençoar, mas talvez estejamos esperando algo que não acontecerá, ou não de imediato.
O problema que envolve certas expectativas é a eventual decepção de alguém que colocou um prazo para ver o resultado da sua fé ou a realização dos seus sonhos. Acontece que Deus não segue o nosso calendário. Que diferença faz pra ele, se hoje é 8 de janeiro ou 15 de outubro?
Nossos alvos e metas devem ter prazos, mas não devemos pensar e agir como se pudéssemos “colocar Deus na parede”.  Nossa “pressão” deve ser sobre nós mesmos, para que a nossa parte seja feita dentro de parâmetros razoáveis.
Existe um tempo determinado para cada propósito (Ec.3) e, em muitos casos, não podemos antecipar ou queimar etapas.
A bíblia compara as ações e resultados da nossa vida às semeaduras e colheitas. Existe uma ocasião adequada para semear e outra para colher. Devemos respeitar a idade certa, aproveitar as oportunidades e evitar as armadilhas.
A época da colheita vai depender do quê estamos plantando. Quem deseja colher muito rápido, deve plantar alface. A espera será de poucos dias, mas o resultado não será muito valioso. Árvores frutíferas, porém, demoram anos para produzir. Mas, se o que se pretende é a extração de boa madeira, o plantio será feito por uma geração para que outra colha.
Portanto, tudo depende do tipo de resultado esperado. Por exemplo, nas questões de relacionamento, não se deve precipitar. Quem está com pressa pode comprometer a qualidade.
Tenha propósitos bons. Escolha bem as suas sementes, semeie, cuide e espere o tempo certo. Se o resultado não aparecer neste ano nem no próximo, continue fazendo o que deve ser feito, com paciência e perseverança. Na ocasião certa, o fruto aparecerá.
Deus pode fazer um milagre, de tal forma que uma árvore cresça e frutifique em um só dia, mas isto geralmente não acontece, pois foi ele mesmo quem estabeleceu as leis naturais e espirituais. Devemos respeita-las.
Acima de tudo, precisamos crer que Deus tem os seus propósitos para nós. No caso dos discípulos, Jesus tinha um plano que estava muito além das expectativas individuais. Dentro de poucos dias, eles seriam cheios do Espírito Santo, dando início a um movimento evangelístico rumo aos confins da terra. O plano de Deus é melhor.
Pr. Anísio Renato de Andrade

EMBALAGENS E CONTEÚDOS




Além dos propósitos originais de transporte e proteção dos produtos, as embalagens também servem para torná-los mais atraentes ou, se possível, irresistíveis.  O problema é que, muitas vezes, elas também são utilizadas para enganar o cliente, prometendo e anunciando muito mais do que a realidade pode oferecer.
Uma embalagem linda, colorida e de boa qualidade pode esconder um produto feio, ruim e inútil. Uma grande caixa opaca pode conter pequena quantidade de produto. Invólucros transparentes resolveriam esse tipo de problema, mas poderiam também reduzir as vendas. Tal seria o efeito da sinceridade extrema.
Pior ainda é a embalagem vazia ou contendo algo diferente do que foi encomendado e pago. É o que acontece com algumas compras virtuais. Recentemente, um consumidor pagou por um notebook e recebeu uma caixa com tijolos.
O ser humano é muito iludido pelo que vê. Certamente, não vamos desvalorizar a beleza, mas ela não deve ser o fator determinante para as nossas escolhas.
No caso das pessoas, aparência, educação, eloquência e riqueza funcionam como embalagens, e tudo isso tem o seu valor, mas o conteúdo, bom ou mau, está no caráter. 
Por isso, podem ocorrer enganos na escolha de amigos, namorados, representantes políticos, líderes espirituais etc.
A bíblia nos ensina o caminho da fé na busca do invisível, de modo que não sejamos dependentes de fatores externos que poderiam nos enganar. Por isso, está escrito: "Não farás para ti imagem de escultura" (Ex.20). A espiritualidade não deve ser influenciada ou definida pela beleza das artes.
Sobre o Messias, está escrito: "Olhando nós para ele, nenhuma beleza víamos para que o desejássemos" (Is.53). O propósito de Jesus não era uma conquista baseada em valores superficiais.
Ele mesmo disse: "O Reino de Deus não vem com visível aparência" (Mt.17.20). "Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. Pelos seus frutos os conhecereis" (Mt.7.15-16). Não se precipite em suas conclusões. Espere que o fruto mostre a natureza da árvore.
É importante que não nos enganemos com as embalagens alheias, mas, sobretudo, não podemos nos enganar com as nossas próprias embalagens.
Como disse Tiago: "Sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos... Se alguém entre vós cuida ser religioso, e não refreia a sua língua, antes engana o seu coração, a religião desse é vã" (Tg.1.22,26).
Quanto às mulheres, está escrito: "o enfeite delas não seja o exterior, no frisado dos cabelos, no uso de jóias de ouro, na compostura dos vestidos; mas no coração; no incorruptível traje de um espírito manso e quieto, que é precioso diante de Deus" (IPd.3.3-4).
O Tabernáculo de Moisés tinha um aspecto exterior belo, porém modesto, com madeira, tecidos e peles de animais. Entretanto, quem entrasse nele encontraria várias peças de ouro puro.   Nós também, como templos de Deus, precisamos investir mais nos valores interiores, sendo cheios da palavra de Deus e do Espírito Santo (Col.3.16; Ef.5.18).
Esta reflexão pode nos deixar em dúvida a respeito das pessoas, inclusive sobre nós mesmos. O que será que existe no meu coração? Estarei fingindo ser o que não sou?  Posso estar enganado acerca dos meus líderes, parentes e amigos?
Nem todas as pessoas são fingidas. Muitas assumem claramente o que são. Seu conteúdo está à mostra.  Para as que querem enganar, inclusive no caso do auto-engano, existe o dia da revelação, a hora de “desembrulhar o presente”. 
É o que acontece nas tentações, crises, conflitos, perseguições e perdas. O que está no coração vem à tona. As máscaras caem e cada um revela sua verdadeira identidade. Momentos assim são ideais para conhecermos bem as pessoas.
Nenhum de nós é totalmente puro e incapaz de pecar.  O próprio Davi, que estava aparentemente bem diante de Deus e dos homens, sucumbiu no dia da tentação.  Depois, arrependido, ele pediu a Deus: "Cria em mim um coração puro e um espírito reto" (Sl.51).  Ele sabia que precisava ser purificado profundamente, muito além das aparências. Nós também precisamos, pois o Senhor vê além dos rótulos e das embalagens. Além das ações e palavras, ele contempla nossos pensamentos, sentimentos e intenções. Oremos como o salmista que disse: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração. Prova-me e conhece os meus pensamentos. Vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno” (Salmo 139.23-24).


Pr. Anísio Renato de Andrade

sábado, 31 de outubro de 2015

O PERIGO DO PODER SEM DOMÍNIO




“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” (Gn.1.26).
Deus fez o homem para dominar. O problema começou quando o homem não dominou seu próprio desejo. 
Hoje, o ser humano domina desde as feras até as naves espaciais, mas muitos não dominam a si mesmos. Esta é a parte mais difícil.
“Como a cidade derrubada, sem muros, assim é o homem que não controla o seu espírito” (Pv.25.28). Quem não se controla não se protege.
Muitas vezes pensamos que somos capazes de dominar certas situações perigosas, mas o correto seria dominar a si mesmo, evitando participar delas.

O poder está no fazer. Domínio próprio é parar. 
Força é motor. Autocontrole é freio.   
Deus nunca nos mandou dominar Satanás, mas a nós mesmos. Assim evitaremos suas ciladas.
Temos pleno domínio antes do envolvimento com o pecado. Depois, somos dominados por ele. Essa mudança ocorre quando falamos, fazemos, aceitamos ou experimentamos o que não deveríamos. O que parece um ato sem compromisso pode tornar-se um eterno tormento. Assim começam os vícios e os envolvimentos indevidos.
Enquanto estamos calados, somos senhores dos nossos pensamentos. Depois que falamos, as palavras nos dominam, podendo até mudar o rumo das nossas vidas.
Quando Davi viu Batseba se lavando, ele ainda tinha o domínio de seus próprios atos. Depois que a possuiu, a situação tornou-se incontrolável como uma carreta sem freios na descida. Ele tomou uma série de providências para se livrar das consequências dos seus atos, mas não conseguiu. O rei não tinha poder? É claro que tinha. O que lhe faltou foi o domínio sobre os seus próprios desejos.
Sansão foi o personagem bíblico mais forte, mas mostrou-se fraco diante dos pecados sexuais. Por fim, a falta de controle sobre a língua custou-lhe os cabelos, a força, a liberdade, a visão, e a vida.
O fruto do Espírito e as obras da carne são opostos entre si (Gal.5.19-22). Assim como o amor resume bem o fruto, a falta do domínio próprio explica muitas daquelas obras pecaminosas listadas pelo apóstolo Paulo. A falta do auto-controle está relacionada à ira, glutonaria, bebedice, prostituição, pelejas, dissenções e homicídios. A mesma relação ocorre com algumas transgressões dos 10 mandamentos.
O fruto é do Espírito, mas o domínio é “próprio”. Deus dá ao cristão a capacidade de se controlar. O jejum é um exercício de auto-controle. Calar-se é também uma boa prática, principalmente quando sabemos que vamos ofender, mentir ou fazer compromissos precipitados.
Que Deus nos ajude a dominar nossas inclinações carnais com seus apetites e impulsos. Rendamo-nos ao senhorio de Cristo, pois a ele pertence todo poder e todo o domínio para sempre.
Pr. Anísio Renato de Andrade

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O ATLETA CRISTÃO




Todo aquele que quer ser um campeão precisa se abster de algumas coisas, ainda que sejam lícitas. O que é ilícito então, nem se fala. Caso contrário, antes mesmo de ser derrotado, já estará desqualificado.
Alguns vícios, como drogas, fumo e álcool, e certas atividades que demandam muita energia são incompatíveis com a prática esportiva, pois podem debilitar o corpo e a mente. 
Mas nem só de abstinência se faz um vencedor. O atleta precisa se alimentar adequadamente e dormir bem, evitando todo tipo de excesso. Além disso, deve dedicar-se a uma rotina de exercícios pesados que não apresentam resultados imediatos, mas são indispensáveis ao bom desempenho nas competições. Uma dedicação esporádica, rápida, leve e sem compromisso não o levará a lugar algum.
Sua boa forma física, seu peso e sua saúde são fatores fundamentais para o seu sucesso.
O apóstolo Paulo escreveu aos cristãos de Corinto, na Grécia, onde já aconteciam os jogos olímpicos. Ele comparou o cristão ao atleta, dizendo:
"Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. E todo aquele que luta de tudo se abstém; eles o fazem para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, uma incorruptível" (1Co.9.24-25).
Quando se tem um objetivo a alcançar, muitas coisas precisam ficar para trás. Não podemos ter ou fazer tudo ao mesmo tempo. Se alguém quer servir a Cristo, deve abandonar Mamom. Se somos amigos de Deus, não podemos ser amigos dos prazeres pecaminosos.
Tudo isso pode ser resumido em duas palavras: renúncia e disciplina.
Precisamos também resistir ao desânimo e às palavras negativas daqueles que nos querem fazer desistir.
O cristão também tem exercícios espirituais a realizar, tais como o jejum, a oração e  a dedicação à palavra de Deus.
O jejum é um exercício de domínio próprio e combate à glutonaria.
A oferta é um exercício de generosidade e combate à avareza.
A leitura bíblica é o exercício do conhecimento e combate à ignorância.
Nosso alvo espiritual não é conseguir casa, carro, emprego, casamento e dinheiro, mas sim cumprir o propósito do Senhor em nossas vidas, em santificação e serviço.
O esforço pode ser grande, mas o prêmio é maior. O resultado será a vitória. A bíblia diz que Deus tem um galardão para nós, uma recompensa na glória celestial. O Senhor Jesus é o nosso principal exemplo. Quando ele esteve aqui na terra, viveu em disciplina e renúncia para que a vontade do Pai fosse realizada.
"Portanto, nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta; olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus" (Heb.12.1-2).

Depois, olharemos para trás com a certeza de que tudo valeu a pena, valeu demais.

            Pr. Anísio Renato de Andrade