quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

OS VACILOS DE GIDEÃO





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OS VACILOS DE GIDEÃO

O livro de juízes fala de uma época quando não havia rei em Israel e cada um fazia o que bem entendia (Jz.17.6). O pecado grassava e os povos vizinhos oprimiam os israelitas. De tempos em tempos, Deus levantava juízes para livrarem a nação. Um deles foi Gideão, que teve um “início de carreira” brilhante, quando, com apenas 300 homens, livrou Israel dos midianitas. Bom, esta era a “manchete” da época, mas a verdadeira causa do livramento foi o poder de Deus. Aqui terminava a ação divina para aquele tempo e começavam as invenções humanas. Imediatamente, o ministério de Gideão foi reconhecido e ele ficou famoso.  O povo o elevou à glória, digo, à vanglória. Começaram a chegar as recompensas materiais e as propostas tentadoras. O problema de Gideão deixou de ser com os midianitas e passou a ser com os próprios israelitas; era o fim da opressão e o início da bajulação.
Primeiro, veio a proposta do reino, uma armadilha disfarçada de oportunidade. Os israelitas queriam fazê-lo rei. Gideão deveria fazer o que Deus mandou (Jz.6.14) e não o que o povo queria. Os reis precisavam ser ungidos para assumirem o trono e não era este o caso. Exercer aquele “ministério” sem vocação e sem unção seria um problema sério. Gideão resistiu ao apelo popular e não aceitou o cargo:
“Porém Gideão lhes disse: Sobre vós eu não dominarei, nem tampouco meu filho sobre vós dominará; o Senhor sobre vós dominará” (Jz.8.23).
Que resposta maravilhosa! Gideão brilhou mais uma vez. Porém, seu fracasso veio na sequência:
“E disse-lhes mais Gideão: Uma petição vos farei: Dá-me, cada um de vós, os pendentes do seu despojo... E estenderam uma capa, e cada um deles colocou ali um pendente do seu despojo. E foi o peso dos pendentes de ouro, que pediu, mil e setecentos siclos de ouro, afora os ornamentos, e as cadeias, e as vestes de púrpura que traziam os reis dos midianitas, e afora as coleiras que os camelos traziam ao pescoço” (Jz.8.24-26).
Gideão estava indo tão bem, mas caiu rapidamente. Ele não queria ser rei, mas desejava as riquezas dos reis. De fato, o maior problema ainda estava porvir. Aquela riqueza seria usada para fazer um éfode, uma suntuosa roupa sacerdotal.
“E fez Gideão dele um éfode, e colocou-o na sua cidade, em Ofra; e todo o Israel prostituiu-se ali após ele; e foi por tropeço a Gideão e à sua casa” (Jz.8.27).
O juiz perdeu o juízo. A história tomou um rumo inesperado e surpreendente a partir do momento que ele fez um “objeto sagrado” que veio a ser um ídolo ou amuleto, símbolo de um misticismo desnecessário. Gideão, sendo da tribo de Manassés,  nunca deveria envolver-se em assuntos sacerdotais, próprios da tribo de Levi. A cidade de Ofra tornou-se centro de peregrinações dos israelitas. A expressão “prostituiu-se” envolve ritual religioso conforme se vê no verso 33. O verdadeiro juiz prestou-se ao papel de falso sacerdote, contribuindo para a criação de um falso movimento religioso em Israel. Gideão fracassou por uma mistura de questões religiosas, financeiras e sexuais, desviando-se do caminho da verdade (Jz.8.30-31).
O juiz conduziu à idolatria e à prostituição o mesmo povo que tinha sido liberto por ele. Se alguém falasse alguma coisa, seria alertado para “não tocar no ungido do Senhor”. A maioria diria “Gideão é uma bênção” ou “lembre-se do que Deus fez através dele”.
Gideão vivia de história. Afinal, ele tinha sido usado poderosamente pelo Senhor, e ninguém duvidava disso, mas um passado bom não justifica o presente errado. Depois, seu filho, Abimeleque (nome que significa “meu pai é rei”), continuou vivendo da história do pai, mesmo sem conhecer o Senhor nem ter experiência espiritual alguma.
O problema não teve solução. Não houve quem pudesse repreender, julgar e condenar Gideão, pois ele era a autoridade máxima, mesmo não sendo rei.
Acontece que nenhum líder, rei, juiz, sacerdote ou anjo está acima da palavra de Deus. Por este motivo, não podemos aceitar a heresia, ainda que venha de alguém que foi usado por Deus algum dia. Gideão transgrediu a lei do Senhor com a sua idolatria e prostituição, tornando-se um herege, apesar do seu histórico louvável. Há quem defenda a tese de que a iniciativa idólatra tenha sido do povo. De todo modo, Gideão não os impediu nem orientou.
Os fracassos de Gideão, Sansão e Jefté foram exceções entre os juízes. Houve vários outros líderes levantados por Deus naquela época que não vacilaram.  Ninguém deve generalizar, propondo que todos sejam falsos, mas todos nós precisamos vigiar, pois assim como Deus usa homens, o diabo também quer usar.
Os fracassos de alguns personagens bíblicos estão na palavra de Deus para o nosso aprendizado. Aprendamos.

Pr. Anísio Renato de Andrade



quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

MALDIÇÕES HEREDITÁRIAS


Já faz muito tempo que o povo evangélico tem ouvido ensinamentos a respeito de maldições hereditárias e outros tipos. A bíblia fala sobre maldições, mas a questão é que alguns pregadores querem nos convencer de que, mesmo sendo convertido, o indivíduo ainda continua amaldiçoado. Outros, chegam ao extremo de afirmar que o cristão autêntico pode ficar possuído por demônios. Tais ensinos não encontram fundamento nas Sagradas Escrituras.
- As maldições constantes do Velho Testamento (Dt.28) estavam vinculadas aos termos da Antiga Aliança de Deus com Israel. Não podemos crer que somos atingidos pelos efeitos de um pacto do qual não participamos. - Ainda que admitamos que aquelas mesmas maldições estejam sobre os ímpios (o que não parece), não há como crer que elas permaneçam sobre os salvos. - O Novo Testamento é o padrão para a igreja. Seus autores jamais trataram os cristãos como amaldiçoados ou endemoninhados, mas sim como justos, santos e benditos de Deus (Col.1.2; Heb.3.1; Mt.25.34; At.3.26; Ef.1.3; Gál.3.9). - Não encontramos na bíblia nenhum processo pós-conversão para quebra de maldições hereditárias. Os apóstolos não passaram por isso, nem os demais irmãos da igreja primitiva. Paulo nunca ensinou coisa alguma sobre algum processo desse tipo. - Toda maldição na vida do cristão foi desfeita na cruz do Calvário (Gál.3.9-14), cujos efeitos se aplicam imediatamente no instante em que o indivíduo aceita Jesus como seu Senhor e Salvador. - A bíblia não fala a respeito de nenhum outro momento ou método de se quebrarem maldições. - Há quem ensine que cada maldição deve ser quebrada de modo específico, sendo detectada e declarada pelo amaldiçoado. A bíblia não ensina isso. A palavra maldição é usada indevidamente para designar uma série de males na vida das pessoas, inclusive de cristãos verdadeiros, fazendo-se uma confusão muito grande em torno da questão. Mágoas, traumas, resultados de escolhas pessoais, consequências de pecados, doenças hereditárias, a força do exemplo dos pais, provações, tribulações, dependência química, física ou psicológica, natureza pecaminosa e hábitos pecaminosos, são confundidos com maldição. Talvez isto seja até uma forma de se esquivar da responsabilidade que cada um tem sobre seus próprios erros. É mais cômodo colocar a culpa nos pais ou em outros antepassados. Após a conversão, precisamos passar por algum processo? É claro que sim, mas não se trata de “quebra de maldições”, senão de uma busca constante pelo conhecimento bíblico que nos proporcionará mudança de mente (Rm.12.2), crescimento espiritual e intimidade com Deus. O ex-viciado precisará de um acompanhamento, e talvez de uma internação, para desintoxicação e isolamento em relação ao contato com a droga, mas isso nada tem a ver com maldição. Se a divergência fosse apenas de ordem semântica, nada haveria de grave. Se chamamos determinado problema de “trauma” ou de “maldição”, talvez seja só uma questão do nome que se dá. Entretanto, quando alguém diz que o convertido está carregando maldições hereditárias, faz uma afirmação contrária à palavra de Deus. Onde fica o valor do que se lê em II Coríntios 5.17? “Se alguém está em Cristo, nova criatura é. As coisas velhas se passaram e eis que tudo se fez novo”? Se isso não se aplicar a uma libertação espiritual, que aplicabilidade terá? Para que se quebrem maldições, alguns líderes querem que façamos uma retrospectiva afim de confessarmos pecados cometidos antes da conversão. Contudo, a bíblia não estabelece tal exigência para ninguém. Se isto fosse necessário, imagino que uma pessoa que se converte aos 50 anos de idade, precisaria passar alguns anos confessando pecados. E mesmo assim, não existe garantia de que teria se lembrado de todos. O ladrão que morreu ao lado de Cristo não confessou cada um de seus pecados mas, ainda assim, foi purificado e salvo imediatamente. E mesmo que vivesse ainda muitos anos, não precisaria fazer tal confissão, pois isso nunca foi exigido de nenhum daqueles que se converteram no período do Novo Testamento. Se fizermos tal coisa, estaremos negando ou menosprezando a obra que Jesus fez em nós no momento em que nos entregamos a ele. Se pecarmos depois de convertidos, vamos confessar cada pecado (I Jo.2.9), mesmo porque não vamos esperar que os pecados se acumulem para fazermos uma confissão “no atacado”. Algumas pessoas, depois de passarem por processos de “quebra de maldição”, verificam que os problemas identificados continuam. Ficam frustradas e desanimadas. A causa está no falho diagnóstico e no falso remédio. Certas situações físicas, naturais, econômicas, sociais, etc, continuam inalteradas após a conversão, mas isso não significa maldição. Se tudo mudasse, as pessoas convertidas ficariam irreconhecíveis. Afinal, elas continuam tendo uma história e elementos presentes que são resultados de suas escolhas passadas. Por exemplo, o pobre continua pobre. Isso não é maldição. Trata-se de uma condição social que pode ser mudada, mas não obrigatoriamente em virtude da conversão. O Novo Testamento fala sobre escravos que se converteram ao cristianismo. É claro que se tratava de uma situação inadequada e indesejável. Quem pudesse se libertar não deveria perder a oportunidade, mas a continuidade da escravidão não era tratada como maldição (Fm.10-14; I Cor.7.21). O que seria então uma maldição? A palavra é formada por duas outras: “mal” + “dicção”. Etimologicamente, podemos traduzi-la como “falar mal”. Maldição é uma praga profetizada contra alguém. Na bíblia encontramos maldições proferidas por Deus contra os que transgridem seus mandamentos (Dt.28). Também existem casos em que o pai amaldiçou seus filhos (Gn.9.24-25; Gn.49.5-7; Heb.11.21). Num episódio excepcional, Cristo amaldiçoou uma figueira (Mc.11.21). Não encontramos maldições vindas de Satanás, como parecem crer algumas pessoas, embora ele possa participar da concretização das mesmas. A maldição vem, geralmente, de uma autoridade que tenha também poder para abençoar. Por outro lado, não basta que a maldição seja proferida. Para que se realize, ela precisa também ter uma razão concreta. “A maldição sem causa não virá” (Pv.26.2). Se um pai amaldiçoa um filho, isso não se concretizará se o filho não for merecedor daquele mal, ou seja, se ele estiver inocente naquela situação ou se for um cristão. E mesmo com este fundamento bíblico que mostra a existência de maldições, cremos que todas elas são quebradas no momento da conversão. E depois de convertidos, será que podemos atrair novas maldições sobre nós? Creio que isso pode acontecer, caso nos desviemos do evangelho, escolhendo uma vida de pecado (Heb.6.7-8; II Pd.2.14-15). Mas, ainda assim, não há que se falar em maldições hereditárias. Os apóstatas podem ficar possessos (I Sm.16.14), mas não os cristãos fiéis e perseverantes no caminho do Senhor. Aquele que se desvia pode ter de volta o demônio que antes o dominava, acompanhado de outros sete piores do que ele (Mt.12.45). Todo convertido precisa se encher do conhecimento da palavra de Deus. Assim, conhecerá e assumirá sua posição espiritual, deixando situações que, em virtude da ignorância, continuariam em sua vida, podendo vir a ser confundidas com maldições. Nessa linha de raciocínio incluímos os traumas, mágoas, etc. O perdão é um remédio eficaz para as feridas da alma, que não devem ser confundidas com maldições. A vida cristã não nos oferece imunidade contra o sofrimento. Podemos ser acometidos por provações, tribulações e até aflições (João 16.33). Não venhamos dizer que são maldições hereditárias. A bênção e a maldição não podem estar sobre a mesma pessoa. Os filhos de Deus não são malditos nem podem ser. Somos bem-aventurados porque Jesus nos salvou e nos libertou. Não temos demônios nem podemos tê-los, porque somos o templo do Espírito Santo que habita em nós (I Cor.3.16). Pr. Anísio Renato de Andrade

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O PREÇO DO PECADO




Quase tudo na vida tem um preço. Procure conhecê-lo antes de adquirir ou realizar o que quer que seja. Calcule o custo e verifique se você tem condições de pagar (Lc.14.28). Depois, pode ser tarde demais.

Cuidado! Muitas vezes, o valor está escondido. Mercadorias em exposição são geralmente bem organizadas para atrair e convencer, mas o seu preço pode não estar visível. No Brasil, existe uma lei que obriga os comerciantes a colocarem a plaquinha com o valor, mas o seu desejo seria escondê-lo, pois o preço pode assustar e afugentar os interessados, inviabilizando a venda.

Se nos dispomos a assistir uma apresentação sobre qualquer produto ou serviço, a informação mais difícil de se obter é o preço. É um mistério, um segredo, como se fosse uma ofensa a ser evitada. Para amenizar o impacto, os marketeiros trocaram o nome do “pagamento” por “investimento”, o que, em alguns casos, faz sentido. Nós, brasileiros, já estamos acostumados às propagandas enganosas, falsas promoções, falsos descontos, impostos abusivos, juros embutidos, cobranças com multas e correções monetárias de proporções astronômicas.

De modo paralelo a tudo isso, existem também as negociações espirituais. Satanás faz o seu comércio (Ez.28.16-18).  Sua mercadoria é o pecado. Sua propaganda é sedutora, com anúncio de vantagens, ocultação de desvantagens e absoluto silêncio quanto ao preço final (Gn.3). Os aparentes e imediatos benefícios da iniquidade são propagados aos quatro ventos a todo tempo, mas seus efeitos colaterais são omitidos. Não se deixe enganar. Agora, o prazer; depois, o tormento. O pecado pode parecer barato ou até gratuito, mas é muito caro e a cobrança vem com todo tipo de acréscimo. A despesa não é apenas material ou financeira, mas moral e espiritual. O pecado custa a paz do ser humano, sua alegria, felicidade e razão de viver. Pode incluir a perda dos bens, dos entes queridos, da saúde, da vida, mas o maior interesse do inimigo é pela posse eterna da alma humana. Pode-se ganhar muito dinheiro com o pecado, ou não, mas ele sempre traz grande dívida espiritual.

A proposta do maligno parece uma dádiva, mas a contrapartida é absurda: “Tudo isso te darei, se prostrado me adorares” (Mt.4).

Mas, “de que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma”? (Mc.8.36).

O pecado é caro. O prazo de pagamento é a eternidade. O fruto proibido não foi cobrado imediatamente, embora seus efeitos já tivessem começado.  O pecado parece gratuito. O texto de Gênesis não diz que Adão e Eva desembolsaram alguma quantia, mas a lista de prestações foi longa: vergonha, medo, culpa, perda da comunhão com Deus, expulsão do paraíso, bloqueio do acesso à árvore da vida, morte de Abel e, finalmente, a morte do primeiro casal, sem contar com a eternidade no lago de fogo, caso não tenham sido perdoados. 

O pecado parece gratuito. Esaú comeu as lentilhas e saiu. Tudo parecia normal, mas a cobrança viria.
Sansão se prostituiu diversas vezes. Ele se levantava e saía como se nada tivesse acontecido, mas a cobrança veio.
“Este é o caminho da adúltera: Ela come e limpa a boca, e diz: Não fiz nada de errado” (Pv.30.20), mas a cobrança vem.

Como saber o preço do pecado? O diabo não dirá, mas podemos saber através da bíblia ou observando o pagamento que outros fizeram.

Veja o preço que Abraão pagou pelo relacionamento com a escrava ou quanto custou o adultério de Davi com Batseba.

O pecado parece gratuito, mas é caríssimo. A prostituição, por exemplo, custa muito mais que dinheiro. É grande engano pensar que só o cliente paga e a prostituta apenas recebe.  Ambos pagam. Satanás recebe. É assim que o pecado funciona.

O pecado parece gratuito, mas a conta chegará. O cobrador é implacável.  O pecador não conseguirá esconder-se dos verdugos (Mt.18.34). Ninguém conseguirá enganar o Diabo.

O preço da droga não é cinco, dez ou cem reais. É a sua saúde, sua vida e seus bens.
O preço do álcool é sua honra, seu emprego e sua família.
Tudo isso é mais caro do que você imagina.

Tudo que até aqui foi dito é importante para que tenhamos uma visão razoável do custo do pecado, mas a bíblia nos ensina também sobre a possibilidade do perdão. Isso não é impunidade, mas significa que alguém pagou a conta em nosso lugar: Jesus Cristo.

O sangue derramado na cruz do Calvário é suficiente para quitar a nossa dívida, mas precisamos saber, reconhecer e aceitar aquele sacrifício.

“Tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz” (Col.2.14).

Jesus pagou o preço do pecado em nosso lugar. Quem suplica o seu perdão encontra a paz e a comunhão com Deus. Contudo, não podemos considerar sua morte como uma espécie de cartão pré-pago que nos autoriza a uma vida imunda. Ainda que o sangue de Jesus nos purifique diante de Deus e nos livre do inferno, as consequências terrenas do pecado geralmente continuam. O adultério pode ser perdoado, mas a destruição do casamento pode ser um efeito permanente. Portanto, a vigilância precisa ser constante.

O desejo de Deus é que, tendo sido perdoados, tenhamos a santificação como novo modo de vida.  “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm.6.23).


Pr. Anísio Renato de Andrade

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

QUATRO DIMENSÕES DA FÉ




O ASPECTO MATERIAL

De acordo com os evangelhos, várias pessoas procuraram Jesus por motivos diversos. Certa vez, o Mestre multiplicou pães e peixes para a multidão, mas sendo procurado no dia seguinte, disse ao povo: 
“Vós me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes” (João 6.26).  Aquelas pessoas criam que Jesus poderia lhes dar pão, mas esse nível de fé não salva. 
A necessidade material e física, muitas vezes urgente, nos faz sair em busca do suprimento. Além disso, existe o desejo. Depois de atendidos os requisitos da sobrevivência, almejamos também a supérflua satisfação da vaidade. Muitas vezes vemos em Cristo a possibilidade de resposta para todos esses anseios, que podem passar do razoável ao absurdo.
O que você espera do cristianismo? Emprego, empresa, dinheiro, carro, saúde física, casamento, casa, roupa e comida? Tudo bem. Jesus pode nos dar coisas deste mundo e resolver nossos problemas naturais, mas esta não é a essência do evangelho.
Se pedimos ao Senhor apenas as coisas que o ímpio já tem, existe algo muito errado com a nossa fé e a nossa doutrina. Limitados a este nível, estaríamos apenas colocando a fé a serviço do materialismo e do nosso bem-estar. 
A expectativa materialista pode ser frustrante quando Jesus diz “não”. “Desde então muitos dos seus discípulos tornaram para trás, e já não andavam com ele” (João 6.66).
Poucos estão prontos para a resposta que Paulo recebeu: “A minha graça te basta” (2Co.12.9).  Que Deus nos ajude a perceber o valor inefável da sua graça.

O ASPECTO ESPIRITUAL

Depois de decepcionar aos que buscavam o pão material, Jesus disse aos doze: “Quereis vós também retirar-vos? Respondeu-lhe, pois, Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna” (João 6.67-68).  Portanto, o apóstolo conseguiu vislumbrar a importância do alimento espiritual e seu efeito na eternidade. 
“Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm.14.17). 
O propósito do evangelho é essencialmente espiritual. As questões físicas são importantes, porém secundárias. Por isso Jesus, antes de curar o paralítico disse: “Teus pecados estão perdoados” (Mc.2.5). 
Mais importantes do que as coisas materiais são os valores espirituais: perdão, paz, alegria, misericórdia, unção, etc, mas é possível que os nossos elevados desejos espirituais ainda estejam contaminados pelo egoísmo. Pode ser que ainda estejamos atentos apenas às nossas necessidades e interesses: minha paz, minha alegria, minha salvação, etc. Estas são fases compreensíveis do nosso crescimento espiritual, mas podemos e precisamos avançar. 

INDO ALÉM DE MIM MESMO

Algumas pessoas procuraram o Senhor Jesus para pedirem a bênção a favor de outros (Mt.8.6; Mt.15.22; Mc.5.23; Lc.5.18). Este é o nível do intercessor e do evangelista, que saem de sua zona de conforto em busca do bem para o próximo.  “Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros” (Fp.2.4). Orar e agir em favor do próximo são atitudes mais importantes do que aquelas que visam o interesse próprio. Preocupar-se com a salvação das outras pessoas é extrapolar os limites do egoísmo. Esta é a fé que opera pelo amor (Gal.5.6).  

FOCO EM DEUS 

Tudo que até aqui foi dito tem o seu valor, mas o nosso alvo principal deve estar no próprio Deus, no desejo de conhecê-lo cada vez mais e viver eternamente com ele. Este é o nível do verdadeiro adorador. 
É necessário perguntar: Se o Senhor não nos der o que esperamos ou tirar o que temos, continuaremos fiéis a ele?  
O filho pródigo voltou para casa por causa do pão e não por amor ao pai. Que bom que voltou! O pai ficou feliz, mas sua motivação poderia ter sido melhor. 
Precisamos atingir um nível de espiritualidade acima do egoísmo e do altruísmo. Isso não significa, a priori, que deixaremos de lado nossas necessidades ou as do próximo, mas existe uma dimensão sobrenatural a ser alcançada. 
Deus não permitiu que Jeremias se casasse e tivesse filhos, mas nem por isso o profeta deixou de servi-lo (Jr.16.2). Deus disse que tiraria a esposa de Ezequiel, e tirou (Ez.24.15-18), mas nem por isso aquele servo deixou de ser fiel. Jó perdeu tudo, mas não desistiu da sua fé (Jó 1.20-22). Paulo chegou ao ponto de dizer que “morrer é lucro”, pois estaria com Deus (Fp.1.21). São exemplos de pessoas que alcançaram uma dimensão superior, e por isso tiveram capacidade de enfrentar situações que para muitos teriam sido insuportáveis. 
Teremos alcançado esse patamar quando formos capazes de dizer verdadeiramente: “Senhor, estou disposto a abrir mão de tudo neste mundo, inclusive da minha própria vida, para te servir, te conhecer, te amar e contemplar a tua face”.


Pr. Anísio Renato de Andrade

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Palavra, Fé, Obras e Poder



“No princípio, era o verbo” (João 1.1). A palavra é o começo e o fundamento de tantas coisas na vida, mas, para ter alguma utilidade e efeito pessoal, ela precisa da fé. Se alguém gritar “fogo, fogo, fogo”, ninguém tomará atitude, a não ser que acredite no alerta.
Como está escrito: “Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram” (Hebreus 4.2).
O binômio “palavra e fé” está presente em todas as seitas e religiões. Todas têm sua doutrina, teoria, dogma e mensagem, sobre os quais se deposita a fé.
Se a nossa análise parar por aqui, teremos um equilíbrio aparente entre as religiões. Seria uma palavra melhor do que outra? Haveria uma fé superior às demais? Sabemos que sim, mas isso não é facilmente detectável.
Por isso, Tiago disse que “a fé sem obras é morta” (Tiago 2.20). Precisamos ir além das palavras e da fé. O conhecimento e a crença devem ser acompanhados pela prática. Eu sei, acredito e faço.
“Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tiago 1.22).
As religiões se diferenciam umas das outras neste quesito. Algumas são mais ativas tanto em seus rituais como nas obras a favor dos necessitados, mas a prática cristã vai além de tudo isso. O evangelho deve produzir em nós um modo de vida correto e não apenas liturgia e filantropia.
Ainda assim, os elementos até aqui mencionados, palavra, fé e obras, não determinam a verdade de qualquer segmento religioso, embora possam mostrar coerência, sinceridade e devoção.
Determinada palavra pode ser mentira; a fé pode ser mera ilusão e as obras podem ser espiritualmente mortas, a despeito do seu valor social. A pregação eloquente pode tocar as emoções, e isso pode ser confundido com espiritualidade. Podemos, inclusive, inventar uma divindade e uma religião nova que parecerá tão boa quanto as antigas, com grandes templos, aparatos artísticos e recursos audiovisuais impressionantes. Se o cristianismo for só isso, devemos abandoná-lo imediatamente.
Entretanto, Jesus não nos trouxe apenas palavra, fé e obras, mas poder. Ele disse: “Eis que vos dou poder para pisar serpentes, escorpiões e toda força do inimigo e nada vos fará dano algum” (Lucas 10.19).
“Mas recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo, e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até os confins da terra” (Atos 1.8).
Onde quer que o evangelho for pregado, sinais devem acontecer, como Jesus disse: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão” (Marcos 16.15-18).
Pela graça de Deus, somos testemunhas de curas e libertações em nome de Jesus. Não precisamos pegar em serpentes nem beber veneno, mas estes são apenas alguns exemplos de desafios que, se necessário, seriam vencidos pelo poder de Deus. Acima de tudo está o nosso relacionamento com o Senhor, mas o seu poder precisa, em algum momento (ou sempre) manifestar-se em nossas vidas. Quem não tem experiências com o sobrenatural pode, algum dia, duvidar da própria fé.
Qualquer pessoa pode orar, mas, se servimos ao verdadeiro Deus, haveremos de receber respostas de oração. A vida cristã envolve palavra, fé, obras e poder. Não basta a palavra sem fé ou a fé sem o fundamento da palavra, a fé sem obras, as obras sem fé ou tudo isso sem poder. Não adianta acreditar na energia elétrica e saber tudo sobre ela, se a luz nunca se acender.
Não bastam as nossas palavras e ações. Precisamos ver o agir de Deus por nós e em nós. Precisamos do poder de Deus e não do poder econômico, por mais necessário que o dinheiro seja.
Com tudo isso, não significa que estejamos justificando toda e qualquer manifestação de poder espiritual, pois a bíblia nos adverte também a respeito do poder de Satanás (Atos 26.18). Portanto, fatos sobrenaturais precisam ser julgados à luz da palavra de Deus. Assim fechamos o ciclo dos elementos citados. Por exemplo, existem pessoas que praticam a caridade, mas fazem “trabalhos espirituais” para matar o seu semelhante. Desse modo, o poder, a fé e as obras de tais segmentos estão condenados sob o aspecto moral. Enfim, todo poder que contraria a palavra de Deus é maligno.
Sobretudo, precisamos estar conscientes de que a palavra de Deus e a fé cristã têm um propósito eterno, além das obras e dos milagres: a salvação eterna das almas (1Pedro 1.9).
Pr. Anísio Renato de Andrade

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

TABERNÁCULO, TEMPLO E SINAGOGA




Depois de tirar Israel do Egito, Deus ordenou que Moisés fizesse um Tabernáculo, uma grande tenda, que seria o local de culto no deserto. Além da ordem, Moisés recebeu instruções minuciosas sobre a obra, especificando desde a madeira da arca até os colchetes das cortinas. Ele não poderia fazer coisa alguma à sua própria maneira nem precisaria usar de criatividade. Todas as medidas, formas, cores e texturas estavam determinadas (Ex.25-27).
Alguns séculos mais tarde, o velho tabernáculo seria substituído pelo templo em Jerusalém. Embora sua construção tomasse por base a estrutura registrada por Moisés, o rei Salomão foi muito além, aumentando em tamanho, quantidade e valor diversos itens da construção.
O Tabernáculo tinha um pavimento, um altar de sacrifício, um altar de incenso, uma mesa, um candelabro e uma arca. O templo tinha 3 andares, incluindo alojamentos para os levitas e sacerdotes. Em lugar da pia original, havia 10 pias móveis sobre rodas e um grande reservatório de água sustentado por 12 bois esculpidos em bronze. No santuário havia 10 candelabros de ouro e 10 mesas para os pães da proposição. As antigas peles que formavam a tenda foram substituídas por paredes revestidas em ouro, com figuras de querubins, palmeiras e flores. Somente a arca da aliança era a mesma do tabernáculo anterior (2Cr.3-4).
Se lá estivéssemos, talvez reprovaríamos a obra do rei, acusando-o de ser megalomaníaco e de ter mudado o projeto que Deus deu a Moisés. Porém, o Senhor aprovou a obra.
“E os sacerdotes não podiam permanecer em pé, para ministrar, por causa da nuvem; porque a glória do Senhor encheu a casa de Deus” (2Cr.5.14).
Moisés havia feito o que Deus mandou. Salomão fez mais e não menos, mas o essencial foi mantido, pois não poderia ser abolido.
Passados mais alguns séculos, o templo foi destruído pelos babilônios e os judeus foram levados cativos. Depois de cativeiro, os judeus voltaram a Jerusalém, reconstruíram o templo e assim terminou o período do Antigo Testamento.
Quando lemos os Evangelhos, encontramos, além do templo, as sinagogas, ou seja, pequenos locais de reunião dos judeus para oração e ensino. Elas são citadas muitas vezes, mas sua origem não é explicada em parte alguma. Teólogos sugerem que as sinagogas tenham sido uma invenção dos judeus durante o cativeiro na Babilônia. Estando longe de Jerusalém e sem o templo, eles teriam criado esses novos locais para seus encontros religiosos.
Se pudéssemos viajar no tempo e visitar a Palestina nos dias de Jesus, é possível que nos tornássemos contrários às sinagogas, argumentando que Moisés e Salomão nunca conheceram tal coisa e que Deus nunca mandou que fossem construídas.
Entretanto, Jesus frequentava as sinagogas e ali curava e ensinava (Mt.4.23; 9.35). Isso não quer dizer que ele tenha aprovado tudo que o judaísmo criou, mas indica que o problema judaico não estava relacionado aos lugares, mas às pessoas, seu relacionamento com Deus e como se comportavam onde quer que estivessem. Errado era açoitar alguém na sinagoga ou matar no templo (Mt.10.17; 23.35), bem como em qualquer outro local.
Jesus priorizou o ser humano e combateu o pecado, não se preocupando em combater as sinagogas inventadas sem autorização de Moisés.
Se Jesus viesse fisicamente às nossas igrejas hoje, encontraria muitas invenções. Muitos cultos contam com guitarras, baterias, contrabaixos e teclados. Se dependêssemos de precedente mosaico, apenas o shofar seria aprovado, mas não dependemos.  Jesus ficaria incomodado com tudo isso? (Talvez, se o volume estivesse muito alto).  Mas sua prioridade continuaria sendo as pessoas. Ele falaria contra o pecado, ensinaria sobre o reino de Deus e realizaria muitos milagres.
Conheço pessoas que censuram até os seminários e a escola bíblica dominical sob o argumento de que tais coisas não se encontram na bíblia. Certamente, essas mesmas pessoas combateriam o templo de Salomão e as sinagogas judaicas, se lá estivessem.
Outros sentem-se muito incomodados com as luzes coloridas usadas em alguns cultos, mas aceitam os modernos instrumentos musicais e outros itens do aparato tecnológico. Cada um deve cultuar à sua maneira, sem contrariar as Escrituras, mas usando da liberdade cristã para ser criativo enquanto não estiver pecando.
O problema dos nossos dias não é luz colorida nem os instrumentos musicais, mas a prostituição, o adultério, o divórcio, o homossexualismo, a corrupção e a heresia. Não permitamos que a forma tire nossa atenção do conteúdo.  O que nos ameaça hoje não é a luz colorida, mas a possibilidade de uma vida nas trevas do pecado. Nossa adoração pode ser à capela ou acompanhada por uma orquestra, mas, se não for em espírito e em verdade, será inútil.
Muito do que existe hoje não existia nos dias de Jesus e, se existisse, não faria diferença alguma no mundo espiritual. Devemos estar atentos ao que Jesus considerava importante, conforme lemos nos evangelhos. O resto é secundário.
Se não combatermos o pecado e ficarmos perdendo tempo com discussões supérfluas, seremos como os fariseus: coando mosquitos e engolindo camelos.
Afinal, nós somos o templo do Espírito Santo. Somos habitação de Jesus e em nossas vidas a glória de Deus deve se manifestar. É assim que seremos aprovados por ele.


Pr. Anísio Renato de Andrade 

terça-feira, 16 de agosto de 2016

A POLÊMICA DOS POKÉMONS




Podemos encontrar no meio do povo de Deus diferentes conceitos de pecado e santidade. Embora nossa base seja bíblica (ou deveria ser), existem temas que extrapolam a bíblia, não em essência, mas na forma. Por exemplo, há alguns anos, o Papa João Paulo 2º declarou que emitir cheque sem fundos é pecado, mas esta é apenas uma variação do que se encontra no velho mandamento: “não furtarás”, incluído na máxima “amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. (Agora surgiu uma dúvida: Será que é pecado citar o Papa em um texto dirigido aos meus amigos evangélicos?).
Algumas questões morais e éticas estão muito claras na bíblia, outras nem tanto. Por isso, o tema dos usos e costumes sempre foi um campo de batalhas. O princípio ensinado por Paulo aos romanos é este: “Seja o vosso propósito não colocar tropeço nem causar escândalo aos irmãos”, visto que alguns comem carne, mas outros são vegetarianos. De todo modo, recomenda o apóstolo, cada um esteja firme em suas convicções e aja de modo correspondente, respeitando sua própria consciência (Rm.14 e 15).
Devemos também respeitar uns aos outros, pois a nossa possível divisão, contenda e inimizade são piores do que os assuntos que muitas vezes discutimos. Que o nosso amor não seja prejudicado por um bife, um copo de refrigerante ou uma xícara de café (e tudo isso, pasmem, é objeto de disputas teológicas).
Bom, íamos falar de quê mesmo? Ah, dos pokémons. Existe alguma coisa censurável nesse jogo? Sim. O cristão que quiser se abster ou proibir os filhos de utilizá-lo, fique à vontade, pois terá razões para isso. Entretanto, em quase tudo neste mundo encontraremos alguma influência ruim e teremos razões para o afastamento e a rejeição, seja a TV, o rádio, as músicas, as artes em geral, a literatura, os esportes, a política, etc.
Por exemplo, a nota de 1 dólar contém símbolos de ocultismo, mas isso não impede os cristãos de recebê-la.
Existem contaminações evidentes, acima de qualquer discussão, e que não podemos aceitar, mas, se formos examinar minúcias, criaremos neuroses para nós e nossos filhos.
Por exemplo, é claro que precisamos de alimentos limpos e a lei de Moisés tratou deste assunto. Os fariseus foram além e regulamentaram o ato de lavar as mãos. Isso é bom, mas não deveria ter valor religioso. Além disso, ficavam vigiando pra conferir se as pessoas estavam cumprindo a tradição. Se quisermos, podemos ir além. Será que o sabonete que você usa está limpo? Então, quando lavar as mãos, lave o sabonete. Será que a água está limpa? Será que o cano está limpo? Vamos usar apenas água mineral engarrafada? Mas, será que essa água é pura?  Esse tipo de preocupação pode virar uma neurose.  Isso não significa que vamos beber água do esgoto, mas o extremismo é perigoso.
De igual modo, se vivermos preocupados com a absoluta assepsia espiritual, precisaremos, como disse Paulo, sair do mundo (1Co.5).  Foi assim que inventaram os mosteiros. Entretanto, até os homens que foram à lua (se é que foram), levaram consigo seus maus pensamentos. 
Em termos naturais, estamos cercados por contaminações, inclusive no ar. Embora os hábitos de higiene sejam imprescindíveis, o que garante a nossa saúde não é necessariamente a mania de limpeza, mas o nosso sistema imunológico. Os anticorpos que o nosso organismo produz combatem uma série infinita de agentes nocivos que nos atacam o tempo todo, mesmo sem percebermos. Assim também, devemos nos alimentar da palavra de Deus, aprendendo princípios que serão poderosos antídotos contra os ensinamentos malignos que nos vêm todos os dias por vários meios, inclusive religiosos. Devemos ensinar a palavra de Deus aos nossos filhos. Não podemos abrir mão disso.
Não devemos ser idólatras. Isso é ponto pacífico. Entretanto, vivemos cercados pela idolatria. Até os bairros da nossa cidade têm nomes de ídolos. Então, significa que não podemos ter igrejas nesses bairros nem morar neles? Acho que isso já seria um extremismo desnecessário. Afinal, como disse Paulo (e não São Paulo), o ídolo é nada.
O mesmo apóstolo citou autores mundanos e usou as olimpíadas para ilustrar ensinamentos espirituais (At.17; 1Co.9; Tt.1). Se fosse hoje, muitos o repreenderiam: “Paulo, você não sabe que as olimpíadas são feitas em homenagem aos deuses gregos”? Ele sabia.
Os pokémons podem ser prejudiciais? Sim. Qualquer coisa pode ser prejudicial, se não tivermos limites e nos deixarmos dominar por elas. Até a água limpa pode nos afogar. Cuidado.
Não tenho a postura do "nada a ver" e acho isso perigoso, mas o problema da nossa geração não é pokémon, mas a prostituição, o adultério, a pedofilia, o homossexualismo, o divórcio, as drogas, líderes mentirosos e exploradores, políticos corruptos e ladrões etc. Acho que temos coisas mais importantes para nos preocuparmos.
Algumas pessoas veem demônios em tudo. Conheci um líder que ensinava os irmãos a expulsar demônios dos bancos dos ônibus antes de assentarem e dos produtos de supermercado, assim que chegassem com eles em casa, mas esse mesmo líder, um dia, bateu na esposa. Isso é como coar mosquitos e engolir camelos.
Os pokémons vão passar, mas os pecados que sempre nos assediaram continuarão no mundo causando a desgraça e a perdição. É com isso que devemos nos preocupar.
E olha que eu nem sou caçador de pokémon (por enquanto).


Pr. Anísio Renato de Andrade